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França Segundo Turno Eleição presidencial francesa Emmanuel Macron Marine Le Pen Xenofobia

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Franco-brasileiros votam em Macron para evitar vitória de Le Pen

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Sheila Andrade vai votar Macron porque não quer "uma racista" no poder Arquivo Pessoal

O voto no centrista Emmanuel Macron no segundo turno da eleição francesa, para evitar a chegada de Marine Le Pen (extrema-direita) ao poder, é abraçado pela maioria dos franceses, segundo pesquisas, e também por franco-brasileiros entrevistados pela RFI Brasil – com exceção de um, que vai votar na líder do partido Frente Nacional. A votação acontece no dia 7 de maio.


A gerente de marketing Sheila Andrade, 43, na França há 10 anos, votou no socialista Benoît Hamon no primeiro turno e agora vai votar em Macron para evitar a vitória de Le Pen, que considera que tem um discurso racista e xenófobo, principalmente em relação aos muçulmanos.

“A França é um país muito misturado, há pessoas de vários lugares do mundo. Se ela chegar ao poder, vai criar mais tensão, vai segregar ainda mais, e isso é ruim para o país como um todo”, opina. “Para mim pessoalmente, como franco-brasileira, acho que não muda muita coisa, mas acho que vai ser muito ruim para o equilíbrio do país. Em relação ao terrorismo, ao contrário do que as pessoas imaginam, não é segregando mais que a situação vai melhorar. Pelo contrário, visar os árabes vai dar mais motivo para algumas pessoas irem para o lado da violência. ”

Rejane Ostini concorda com alguns pontos do programa de Le Pen Arquivo Pessoal

Eleitora de outro espectro político no primeiro turno, pois votou no candidato de direita François Fillon, a esteticista Rejane Ostini, 55, também dará seu voto a Macron. “É impossível votar na Marine, que é extremista, quer tirar a França da Europa”, diz a sergipana, casada com um francês e que mora há 33 anos em Paris.

Mas, ao mesmo tempo, ela concorda com alguns pontos do programa de Le Pen referentes à migração. “Necessitamos mais controle. Teria que ser como no Canadá. Infelizmente os migrantes que vêm para cá não têm nenhuma bagagem de estudo. E há muitos que se aproveitam do sistema. Os estrangeiros, principalmente muçulmanos, que têm entre 4 e 9 filhos, que têm uma grande ajuda do governo, passam na frente dos franceses na fila para conseguir uma moradia social (para pessoas de baixa renda)”, opina.

Ela coloca os brasileiros em outra categoria: “Nossa integração e a dos sul-americanos em geral é mais fácil e mais rápida. Dos asiáticos também”.

"Le Pen levaria a uma guerra civil"

Carla de Barros: de Mélenchon a Macron para barrar Le Pen Arquivo Pessoal

Já Carla Einsfeld de Barros, 49, gerente de desenvolvimento na área de hotelaria, acha que uma vitória de Le Pen levaria a uma “guerra civil”. “O problema é que ela acha que os problemas da França se resumem à migração. Eu concordo que a migração deve ser controlada, mas, da maneira como ela quer fazer, isso vai dar um problema interno. Ela quer acabar com o reagrupamento familiar automático. Isso vai dar confusão. Ela é radical contra o islã também. Esse problema de imigração e de religião vai dar uma guerra civil, na minha opinião e na opinião de muita gente com quem eu converso. ”

Entre as propostas contra a imigração de Le Pen estão o restabelecimento das fronteiras com a saída do espaço Schengen, a impossibilidade de regularização e naturalização de estrangeiros em situação ilegal, a redução da migração legal para 10 mil pessoas por ano (contra as 40 mil de hoje), o fim do direito de solo, que permite a atribuição da nacionalidade francesa aos filhos de estrangerios nascidos no país, e do reagrupamento familiar automático, fim da aquisição automática da nacionalidade pelo casamento e fim da dupla nacionalidade para os não-europeus.

Isabel Brossolette: avô foi herói da Resistência francesa Arquivo Pessoal

Para Isabel Brossolette Branco, co-fundadora do site Paris Mania, que veio à França aos 23 anos, votar contra Le Pen é uma questão de honra familiar. “Meu avô materno, Pierre Brossolette, morreu pela França. Foi herói da resistência ao nazismo e entrou no Panteão Nacional há dois anos. Lutou contra o fascismo e o totalitarismo e foi torturado pelos nazistas defendendo os ideais franceses. Jamais poderia votar em Le Pen”, diz.

De qualquer maneira, ela já havia votado em Macron no primeiro turno, mas conta que decidiu o voto na última hora. “Eu sou a favor de uma Europa forte com a Alemanha, tinha que ser um candidato que fosse pró-europeu também. ”

Ela elogia uma frase de um comício de Macron, que disse que existe uma “diferença entre ser patriota e nacionalista”. “Ser patriota é gostar do seu país, ser nacionalista é achar que seu país é melhor que todos os outros”, opina.

"Casta política tenta demonizá-la"

Já Joe Laitier, 30, funcionário de uma indústria farmacêutica em Lyon, votou em Le Pen no primeiro turno e vai repetir a dose no dia 7 de maio.

Joe Laitier vai votar em Le Pen: "Ela não é racista" Arquivo Pessoal

“Aqui na França temos a impressão de que os outros candidatos são todos iguais. Nós já tentamos a direita, já tentamos a esquerda, não tem nada que mude para melhor. Pelo contrário, só piora a cada ano que passa. E Le Pen é a candidata fora do sistema, que nunca exerceu o poder. Toda a casta política atual tenta demonizá-la de uma forma tão grande que eles acabaram nos incitando a votar nela”, analisa.

Ele diz que concorda com a regulação da migração. “Sei que é um pouco contraditório, sendo que eu mesmo sou de origem estrangeira. A migração é boa para o país, mas o problema é que na França ela é completamente desregulada. E está realmente criando problemas para a população, não apenas para os franceses, mas para os próprios migrantes, que vêm para cá achando que vão encontrar uma vida melhor e se deparam com nada. ”

Macron: programa nebuloso

Ao mesmo tempo em que votam contra Le Pen, as entrevistadas dizem que Macron ainda é um personagem um tanto nebuloso. “É um tiro no escuro, não sabemos exatamente quem ele é, o programa dele não está totalmente claro. Acho que ele vai expor o programa mais para frente e que vai ter que fazer concessões para a direita”, opina Isabel.

Ela o considera “jovem e brilhante”, “uma renovação”, mas diz não saber “se ele terá a garra ou a força para enfrentar o que vai acontecer nos próximos 5 anos na França, na Europa e no mundo”. “Ele não é antissistema como dizem. Ele é apoiado pelo sistema e foi colocado ali pelo sistema.”

Sheila o considera “culto e bacana”, mas diz que o problema “é que ele é ultraliberal e veste a camisa de socialista”. “Eu tenho medo que um governo muito liberal possa aumentar as diferenças sociais na França. E, como a gente vem do Brasil e sabe onde isso pode chegar caso aumente a diferença entre as classes, eu não gostaria que isso acontecesse. Mas eu gostaria menos ainda de ter uma racista no poder. ”

Para Joe, que vota Le Pen, “Macron é a personalização do sistema podre que a gente quer tirar do poder”. “Um homem que veio do mundo financeiro, que é muito arrogante. Disse que a França cometeu um crime contra a humanidade com a colonização, que não existe cultura francesa. Isso machuca muito as pessoas que amam seu país”.

Crescimento da extrema-direita

O crescimento exponencial da extrema-direita na França, com uma votação recorde de 7,7 milhões, deixa Sheila indignada.  “Eles usam o estrangeiro como bode expiatório. Foi o que aconteceu no nazismo, culpando os judeus e outros povos pelos problemas. É mais fácil apontar o dedo para o outro que está no seu país.”

Para Isabel, “a França sempre teve um aspecto racista e xenófobo, apesar de ter valores da revolução”. “Ele sempre existiu, senão não teria havido o governo de Vichy durante a Segunda Guerra Mundial. O país tem um passado com uma certa sombra. Há muitos jovens que votam em Le Pen porque não têm ideia do que foram as grandes guerras e o nazismo.”

A empresária também acha que a Frente Nacional usou uma boa estratégia. “A Marine fingiu que brigou com o pai, conhecido por seu discurso racista. Ela é muito inteligente, é advogada. Ela foi tirando de todo o discurso da Frente Nacional a parte extrema. Tanto que muita gente de extrema esquerda está votando nela. Ela foi normalizando o discurso, não falou nada antissemita e nazista. Falou um pouco, mas nada comparado como o que dizia seu pai, Jean-Marie Le Pen (que foi derrotado no segundo turno da eleição presidencial de 2002 por Jacques Chirac).