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França Emmanuel Macron

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Políticas neoliberais devem ser o eixo principal do governo de Macron

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Composição do novo governo reivindica diversidade política. REUTERS/Philippe Wojazer

A primeira equipe de governo de Emmanuel Macron pretendia ser marcada pela diversidade política. Mas a lista de ministros escolhidos mistura nomes vindos da direita, com alguns representantes do centro e outros da ala mais social-liberal do Partido Socialista (PS). Uma composição que já dá o tom do mandato do presidente, que fez campanha reivindicando o fato de não ser nem de direita, nem de esquerda.


Dirigido pelo premiê Édouard Philippe, do partido conservador Os Republicanos, o primeiro governo da administração Macron conta com 18 ministros, nove mulheres e nove homens. Do grupo, sete são socialistas, três centristas e dois conservadores, além de representantes da sociedade civil.

Com a aproximação das legislativas, que já estão sendo vistas por alguns como um segundo round da eleição presidencial, com a possibilidade de os partidos tradicionais recuperarem sua influência, a composição da primeira equipe de Macron é recebida com ceticismo. A esquerda considera que o governo é muito de direita, principalmente com a escolha de Bruno Le Maire para o ministério da Economia e Gérald Darmanin para a nova pasta das Contas Públicas (que substitui as Finanças), ambos vindos do partido Os Republicanos. Já a direita alega que o governo é muito de esquerda.

Porém, o que se notou logo após o anúncio dos escolhidos foi uma concentração de algumas das pastas estratégicas nas mãos de personalidades com tendência mais conservadora. “Esse é um ministério bastante voltado para a flexibilização do mercado de trabalho, a redução de gastos públicos e o aprofundamento das políticas neoliberais, que vai ser o eixo principal do governo”, comenta Thomas Coutrot, economista e chefe do departamento de Condições de Trabalho e Saúde do Ministério do Trabalho da França.

Ele explica que a exceção fica por conta da presença de Nicolas Houlot. “Ele não faz parte dessa classe política convertida ao neoliberalismo. É um autêntico ecologista, que tem um cargo com bastante poder, pois vai dirigir o ministério dos Transportes, da Energia e da Ecologia, uma pasta muito ampla”, comenta. O economista vê nessa nomeação “uma contradição bastante importante para o equilíbrio deste governo, que faz com que duvidemos que ele possa prosperar muitos anos”.

Reforma trabalhista será a prioridade

Esse contexto também leva a crer que a reforma trabalhista, acusada de favorecer o patronato, contará com apoios de peso dentro do governo – principalmente de Le Maire e Darmanin, ministros que têm as rédeas financeiras. Como prometido durante a campanha, o projeto, lançado pelo então ministro da Economia Emmanuel Macron, já está na lista das prioridades do agora presidente. Junto com a lei da moralização da vida política, o texto será discutido antes mesmo das legislativas de 11 e 18 de junho.

Essa reforma deve ser apresentada por Muriel Pénicaud, uma ministra com perfil atípico. Ela mesmo se começou sua carreira como conselheira de Martine Aubry, uma das figuras emblemáticas do PS, mas passou boa parte de sua trajetória profissional no setor privado. “Ela foi dirigente de empresas, diretora de recursos humanos da Danone, uma grande multinacional, e conhece a questão das leis trabalhistas e das condições de trabalho”, lembra Coutrot.

Ministra do trabalho demitiu 900 na Danone

Porém, a ministra tem no seu passado de executiva o fato de ter imposto um rigoroso plano de reestruturação na Danone, o que assusta alguns sindicatos. A CGT recorda que em 2013 ela foi responsável pela demissão de 900 funcionários da empresa na Europa, apesar do lucro de € 1,8 bilhão registrado pela Danone no ano anterior. Pénicaud “segue a linha das políticas antissociais”, avisa o sindicato.

Por essa razão, os representantes dos empregados já anunciaram protestos contra a reforma trabalhista. Os sindicatos convocaram uma mobilização nacional, para o dia 18 de julho.

Em um comunicado coletivo divulgado nesta semana, a Frente Social, que já havia protestado no dia seguinte ao segundo turno da presidencial, se questiona: “Por que dar uma trégua para Macron? Nenhuma ‘trégua’ é dada para a destruição de empregos e de salários, para os precários e os desempregados, para os sem-teto e aqueles que não têm documentos”. Como manda a tradição francesa, os sindicados já preparam um verdadeiro braço de ferro com Macron, seja ele de direita ou de esquerda.