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Calor faz francesas ressuscitarem os leques para se refrescar

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Jovem se abana em vagão do metrô de Paris em 21 de junho de 2017 LC

O mês de junho marca a entrada do verão, e as temperaturas altíssimas dos últimos dias vêm obrigando as pessoas a recorrer a todos os artifícios possíveis para suavizar o calorão. Nesse contexto, um novo acessório ressurgiu, principalmente nos metrôs de Paris: os leques.


Paris. Meio-dia. Estou na linha 12, em direção à estação Porte de Versalhes. No vagão lotado, uma jovem de 16 anos, no máximo, vestida com um macaquinho florido e sandália, tira da bolsa um leque vermelho, meio usado, com rendas, e começa a se abanar. Mais na frente, duas jovens estudantes também conversam com seus leques em ação, a fim de aliviar o calor insuportável.

Abordo a primeira menina e pergunto se ela costuma usar o acessório: "Não, para falar a verdade, é a primeira semana que coloquei na bolsa esse leque, que é da minha avó. Dá pra ver que não é muito novo, não é?", ela responde, rindo. "Não ligo se é algo da moda ou não [o leque], acho importante a gente se sentir bem e, sinceramente, com esse calor, acho que vale tudo para se ter um ventinho no rosto. E é um jeito de agradar a minha avó, que é muito carinhosa comigo, já fiz uma selfie com o leque e mandei para ela".

Senhora com leque branco em transporte público em dia de 37° à sombra LC

As outras duas estudantes que observo têm leques de madeirinha,  vendidos nos mercados asiáticos, geralmente por 1 euro. Em volta, homens e mulheres se abanam com jornais dobrados, lenços, revistas e chapéus. Quem sabe estão pensando se não seria uma boa ideia ter um leque também?

Saindo do metrô, aguardo por alguns minutos o VLT, sentindo que a temperatura está cada vez mais forte. Consulto a meteorologia no telefone: 36 graus. Sento perto de uma senhora que se abana com um leque branco. Pergunto se ela costuma usá-lo: "Sempre, desde que sou moça uso leques porque nos refrescam e são bonitos. Lamento que hoje em dia essa peça saiu da moda, é tão elegante, e antes havia todos os tipos de modelos e matérias, para todas as ocasiões", ela lembra.

Concordo com ela, me abanando com meu leque transparente, super moderno com suas impressões de pinturas, comprado em Cascais, no museu Casa de Histórias Paula Rego. Chego no trabalho e comento que vi e conversei com mulheres com leques, duas colegas tiram imediatamente os seus das bolsas para me mostrar, constato a tendência: "Não existe nada melhor quando se está num lugar abafado".

Leque: um acessório milenar

O leque é automaticamente associado ao imaginário espanhol e ao flamenco. Mas sua história é bem mais antiga. Na Pré-história, ele já era usado para reavivar o fogo; mais tarde, textos e imagens demonstram que foi utilizado por egípcios, gregos e romanos. Mas foi na China que o leque mais antigo foi encontrado, datado do ano VII A.C.  Já o leque plissado, foi inventado pelos japoneses.

Na Europa, o leque plissado chegou em Portugal no século XVI, com as sedas e especiarias. Logo se tornou um símbolo de refinamento entre os nobres e burgueses, conquistando um lugar de honra na indumentária e no comportamento das mulheres. Uma verdadeira dama era reconhecida pela maneira de portar e manipular seu leques.

Os artesãos franceses, ingleses e italianos, fizeram do leque um objeto de arte, tornando-se os maiores fabricantes do século XVIII. Pinturas, bordados e até pedras preciosas ornamentavam os modelos. O leque também foi adotado por homens intelectuais espanhóis, como o poeta Federico Garcia Lorca, Rafael Alberti e Lui Cernuda.

Com o tempo, caiu de moda, exceto na Espanha, onde continua a fazer parte dos acessórios cotidianos, tendo em Valença o seu grande polo produtor.