rfi

Ouvindo
  • RFI Brasil
  • Último jornal
  • RFI em francês

França Dança Cultura

Publicado em • Modificado em

Montpellier Danse traz estreias mundiais e grandes nomes da dança contemporânea

media
Os bailarinos brasileiros Eduardo Hermanson, Renann Fontoura e Tito Lacerda estrelam a criação "Nós, tupi or not tupi", do coreógrafo francês Fabrice Ramalingom. © Safira Moreira

Começa nesta sexta-feira (23) a 37ª edição do Montpellier Danse, no sul da França, com a presença de criações inéditas – uma delas brasileira, do bailarino e coreógrafo Marcelo Evelin. O festival, um dos maiores do país e do mundo, celebra em 2017 a diversidade e a vocação polifônica da dança contemporânea.


“Très bigarré” (“muito colorido”, em português), exclama Jean-Paul Montanari sobre o festival Montpellier Danse, que ajudou a fundar e que dirige há 37 anos num dos maiores centros urbanos e culturais do Sul da França, próximo ao Mediterrâneo. Depois de questionar grandes temas como como a evolução da dança contemporânea e a crise migratória em 2016, o festival se debruça agora sobre o contraste entre extremos, trazendo três diferentes gerações de coreógrafos [o mais novo, o americano Daniel Linehan, de 35 anos, e o mais velho, o holandês Hans Van Manem, de 85] e uma profusão de estilos, entre a tradição e os acentos contemporâneos da performance.

“Uma das vocações da dança contemporânea é extrapolar os limites da cena e do corpo. Gosto de coisas bem diferentes. Ao mesmo tempo que todo mundo espera com grande ansiedade a criação da jovem [cabo-verdiana] Marlene Monteiro Freitas, uma das coreógrafas hoje mais celebradas na cena contemporânea da Europa, que fará aqui sua estreia mundial com ‘Bacchantes, prelúdio para uma purgação’, é preciso também falar da presença da  israelense Sharon Eyal [‘Love Chapter 2’], que vem a Montpellier pela segunda vez e foi aclamada pelo público daqui, com uma dança muito específica, jovem, vibrante, muito passional, ela acaba de ganhar o prêmio da crítica francesa como espetáculo do ano”, afirma Montanari.

"Bacchantes", da coreógrafa cabo-verdiana Marlene Monteiro Freitas. © Filipe Ferreira

“Ao mesmo tempo não podemos esquecer Hans Van Manem, holandês pouco conhecido na França, um excelente coreógrafo neoclássico que produz uma dança de grande refinamento, com um vocabulário muito interessante, com a Companhia Holandesa de balé”, continua o diretor de Montpellier Danse. “Por outro lado, temos este ano ‘El Baile’, o novo trabalho de Mathilde Monnier [que durante anos dirigiu o centro coreográfico nacional de Montpellier] em parceria com o escritor argentino Alan Pauls. Ela quis trabalhar com bailarinos argentinos em torno da questão do ‘baile’. Ela retoma, com Pauls, a temática da peça que se tornou famosa no filme de Ettore Scola, ‘O Baile’. Um lugar onde pessoas de todas as origens se encontram para dançar e viver”, detalha o diretor do festival.

Brasil: uma dança com “apelo ancestral”

“Preciso confessar que conheço muito pouco a América do Sul. Ao mesmo tempo que, por exemplo, [o coreógrafo francês] Fabrice Ramalingom trabalhou nos workshops de Lia Rodrigues, dentro das favelas do Rio de Janeiro, eu estive no Brasil apenas uma vez, durante uma semana em São Paulo. Mas sinto que existe alguma coisa absolutamente nova e fora dos padrões ali, com referências que não têm nada a ver com as nossas”, afirma Jean-Paul Montanari. “Desde o trabalho de Lia Rodrigues que mostramos aqui ano passado [“As fábulas de La Fontaine”], notamos uma presença com apelo às culturas ancestrais, que nos fascina aqui na Europa. Parece-nos algo exótico e muito misterioso e que, aos mesmo tempo, coloca em cena uma série de problemas. Uma situação colonizatória oposta à nossa, a maneira como a consciência e a história do corpo é estruturada, a relação com a natureza. A maneira que o corpo sul-americano é estruturado [na dança] é muito diferente da nossa, sentimos isso no palco”, explica.

“Ontem, por exemplo, estive com dois dos três bailarinos brasileiros de Fabrice Ramalingom [na nova criação “Nós, tupi or not tupi”] fazendo uma pequena interferência no hall do aeroporto de Montpellier, para anunciar o festival. Eu os assisti dançar longamente com as pessoas que estavam no local e posso dizer que são, sem dúvida, dois dos mais belos bailarinos que vi este ano, belos no sentido de possuírem uma técnica de um virtuosismo incrível, mas, além disso, muito misteriosa para mim, e é esse mistério que me toca infinitamente, porque noto que existe ali alguma coisa que não compreendo muito bem e que vem dos primórdios de nossa existência, ainda presente na memória de nossos corpos”, afirma o diretor.

“Nós, tupi or not tupi” e “Dança Doente”

“Nós, em português, quer dizer nós todos, mas também um nó. Em todo o meu trabalho existe a questão do ‘estar junto’. Então, achei interessante perguntar: ‘nós’, o que tenho a ver com essas pessoas que são de um outro continente, de outra geração, de uma outra cultura, inclusive coreográfica? ”, afirma Fabrice Ramalingom, coreógrafo de “Nós, tupi or not tupi” que estreia no dia 28 de julho no festival Montpellier Danse. “ ‘Nós’ também fala de como podemos estar juntos, de onde viemos. Temos uma coisa em comum, que não é da ordem da dança, mas colonial, desses países coloniais de onde viemos. Meus pais são de Madagascar e da ilha de Reunião, eu sou um puro produto colonial, mestiço, assim como eles [os bailarinos brasileiros Eduardo Hermanson, Renann Fontoura e Tito Lacerda]”, detalha Ramalingom, que, durante a coletiva de imprensa do festival em Paris contou ter entrado em contato, entre outras coisas, com o Manifesto Antropofágico da Semana de Arte Moderna de São Paulo (1922), escrito por Oswald de Andrade: “Ali entendi muita coisa sobre o Brasil”, relata o coreógrafo, que já esteve diversas vezes no país, onde desenvolve projetos de dança.

"El baile", da coreógrafa francesa Mathilde Monnier, uma parceria com o escritor argenitno Alan Pauls. © Christophe Martin

“São dançarinos com origem no hip hop, encontrei Eduardo quando ele dançava [com o coreógrafo] Bruno Beltrão. Esse bailarino mudou meu olhar sobre o hip hop e dos dançarinos de hip hop. Eu o convidei para trabalhar comigo na Ménagerie de Verre, em Paris, quando estive lá e assim o trabalho foi se desenvolvendo”, explica Fabrice Ramalingom em um vídeo gravado para Montpellier Danse. “Uma das questões que percorre meu trabalho é também como se emancipar de coisas que nos são atribuídas. Vivi isso na minha vida, foi através da dança que saí da periferia de Paris, do meu meio. Para mim, o hip hop traz a questão do virtuosismo, mas também um gestual cheio de posturas ultramasculinas, um pouco o estereótipo do machão, como nos clipes de rap, muito misógino. Tento apontar na dança deles o que o gesto significa sociologicamente”, conclui o coreógrafo francês, nascido em Avignon.

Completa o elenco brasileiro desta 37ª edição do festival internacional de dança de Montpellier o bailarino e coreógrafo piauiense Marcelo Evelin, radicado em Amsterdã, e sua companhia, que apresentam “Dança Doente”, uma criação inspirada no universo de Tatsumi Hijikata (1928-1986), mestre e pioneiro do butô japonês. “A ideia de doença é uma das questões levantadas nesse trabalho”, afirma Evelin durante entrevista concedida a Montpellier Danse. “ A doença foi um tema muito frequente na obra de Hijikata. Eu comecei a me questionar como poderíamos ver a dança como um sintoma, aquele momento em que o corpo se transforma e muda a percepção de si mesmo. Existe uma diferença entre o sintoma e o diagnóstico”, retoma Marcelo.

“O diagnóstico é o que o doutor, com sua experiência, tem condições de classificar. O sintoma é uma mudança, uma modificação sutil na percepção de nosso próprio corpo, de nossa própria experiência, que só pode ser descrita pelo paciente”, explica Evelin, uma das presenças mais esperadas da edição 2017 do festival.

Montpellier Danse fica em cartaz de 23 de junho a 7 de julho de 2007, ocupando vários espaços de Montpellier, com destaque para a Cidade Internacional da Dança. Clique abaixo para conferir o trailer de “Dança Doente”, de Marcelo Evelin.