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“Nós, tupi or not tupi”: dança e antropofagia em Montpellier Danse

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Os bailarinos brasileiros Eduardo Hermanson, Renann Fontoura e Tito Lacerda estrelam a criação "Nós, tupi or not tupi", do coreógrafo francês Fabrice Ramalingom. © Safira Moreira

O coreógrafo francês Fabrice Ramalingom estreou com bailarinos brasileiros o espetáculo “Nós, tupi or not tupi”, trabalho desenvolvido durante uma residência artística na “Agora”, a Cidade Internacional da Dança de Montepellier, no sul da França, especialmente para a 37ª edição do festival internacional de dança contemporânea Montpellier Danse, em cartaz até sexta-feira (7).


(Todos as passagens em itálico correspondem a citações do escritor modernista Oswald de Andrade, em seu Manifesto Antropofágico)

Tupi, or not tupi that is the question. Só me interessa o que não é meu”, proclamava Oswald de Andrade, escritor e pioneiro do movimento modernista brasileiro, em seu Manifesto Antropofágico de 1928. Quase noventa anos depois, o coreógrafo francês Fabrice Ramalingom redescobre a curiosidade devoradora pelo “Outro” no manifesto do escritor modernista e cria, a partir de sua residência na Cité Internationale de la Danse (Cidade Internacional da Dança, em português), em Montpellier, o espetáculo “Nós, tupi or not tupi”, especialmente para o festival internacional de dança contemporânea Montpellier Danse. Em cena, três bailarinos brasileiros vindos do hip hop, com passagens importantes pela companhia do coreógrafo brasileiro Bruno Beltrão, no Rio de Janeiro.

Da esquerda para a direita, os bailarinos brasileiros Tito Lacerda, Renann Fontoura e Eduardo Hermanson, que apresentaram "Nós, tupi or not tupi?", do coreógrafo Fabrice Ramalingom no festival internacional de dança contemporânea Montpellier Danse. RFI/Márcia Bechara

“Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida. E a mentalidade pré-lógica para o Sr. Lévy-Bruhl estudar”.

No palco, no entanto, nada dos clichês clássicos do hip hop ou de virtuose gestual. Ramalingom desconstruiu todas as expectativas do público majoritariamente europeu do festival de Montpellier: nada de corpos exuberantes, ritmos exóticos, a “transformação permanente do Tabu em totem”, segundo Oswald de Andrade. Três homens brasileiros entram em silêncio enquanto olham a plateia, fazendo aquecimentos leves. Nada de música. Um figurino despojado, moleton e tênis, urbano e próximo do espelho da vida real.

“O que me interessava neste encontro com os bailarinos [brasileiros] era descobrir o que tínhamos em comum”, explica Fabrice Ramalingom, diretor da companhia R.A.M.a. “Para mim, que tenho pais que vieram de regiões colonizadas, Madagascar e Ilha da Reunião, eu me dizia que talvez a gente tivesse isso em comum”, conta o coreógrafo. “Comecei a perguntar aos bailarinos sobre essas questões e eles rapidamente rejeitaram este jogo, eu não entendi o porquê. Foi aí que a (coreógrafa brasileira) Lia Rodrigues me disse – ‘olha, a gente não tem esse tipo de questão, vivemos isso diferentemente’. Então a Astrid Toledo, coordenadora do projeto, me deu o manifesto [antropofágico] para ler, quando pude entender mais sobre o Brasil. O que é interessante nesse trabalho é que existe mesmo uma troca antropofágica entre os bailarinos e eu. Quando dançamos, entramos no Outro para nos construirmos, esse Outro fica para sempre dentro de nós, passa a fazer parte de nossa estrutura identitária”, afirma Ramalingom, que dançou com nomes como Trisha Brown e Dominique Bagouet.

“Suprimamos as ideias e as outras paralisias. Pelos roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas”

Entre os solos de Eduardo Hermanson, Tito Lacerda e Rennan Fontoura, uma bandeira do Brasil se deflagra no vídeo projetado no palco, com a explicação gravada dos bailarinos sobre o significado e a referência ao filósofo francês positivista Auguste Comte, autor da expressão “Ordem e progresso”: “O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim”. “Anda faltando amor no Brasil”, conclui um dos bailarinos, entre solos pungentes à meia-luz, com uma trilha que reproduz ora sonoridades urbanas – pingos de chuva, buzinas, acentos metálicos -, ora uma base eletrônica.

Em um cenário minimalista, entre um linóleo e um telão, evolui a técnica impressionante dos brasileiros, em duos e trios que lembram combates de rua, fugas, confrontos, alianças e jogos, até um pico de completa exaustão conduzido por Ramalingom, antes do fim do espetáculo. No meio da escuridão, uma imagem panorâmica de carros passando sobre a ponte Rio-Niterói toma de assalto o palco, no que poderia ser uma referência às pontes culturais que ligam periferia e centro, mas também um "clin d'oeil" para Niterói, cidade natal de Eduardo.

“Foi um processo muito diferente para mim. Encontrei Fabrice há três anos no Rio, e convidei-o a fazer um trabalho comigo, que seria inicialmente um solo, que acabou evoluindo para um trio com Rennan e Tito. A primeira parte do trabalho aconteceu na Ménagerie de Verre em Paris. Eu gosto da atitude do hip hop francês e europeu. É um movimento que tem uma mentalidade interessante, de mistura mesmo", precisa o bailarino. "Foi uma jornada estranha [o processo de criação do espetáculo na França]. Uma espécie de descobrimento. Parece que eu sei o que está acontecendo, ao mesmo tempo que preciso ainda de um tempo para elaborar tudo o que aconteceu ", afirma Hermanson.

"Não sei se poderíamos falar de uma particularidade do hip hop brasileiro, mas o nosso estilo é caracterizado pela velocidade, precisão e energia", afirma Rennan Fontoura. "O hip hop chegou de maneira difusa no Brasil na década de 80, não havia muita informação, os dançarinos eram auto-didatas", explica Tito Lacerda."O curioso é que, dançarino ou não, nós temos uma cultura da dança no Brasil. As pessoas dançam nas festas. Aqui não vemos muitas pessoas se mexendo", diverte-se Tito. 

“O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica”.

“Eu tinha uma ideia de que existia um ‘corpo brasileiro’. Mas, quando conheci Eduardo, Rennan e Tito descobri que não existe nada disso. Essa história de ‘corpo brasileiro’ não lhes interessa. Eles vêm de uma nova geração onde esse corpo é misturado com o americano e o europeu, eles se encontram nesta mistura e conseguem de identificar com energias diferentes. Na verdade, eles não desejam ser reduzidos a um ‘corpo brasileiro’, explica Fabrice Ramalingom. “Do ponto de vista coreográfico, os bailarinos já haviam desmistificado os códigos do hip hop em trabalhos anteriores com nomes como Bruno Beltrão, por exemplo. Bruno já havia dissociado com eles a postura da dança hip hop.  E o fato de trabalhar com eles me emancipa também da visão que eu tinha do hip hop, que eu considerava cheio de clichês machistas e mesmo misóginos”, contextualiza o coreógrafo.

Para além das implicações estéticas do espetáculo, “Nós, tupi or not tupi” traz também um “portrait” (“retrato”, em português) dos bailarinos brasileiros, suas origens, suas raízes, suas famílias. Em uma passagem do vídeo, um tríptico mostra Eduardo, Rennan e Tito em suas casas, segurando fotos três por quatro de seus pais e explicando suas origens – sírio-libanesas, índias, negras, europeias, a mistura fundamentalmente brasileira da devoração identitária ilustrada no palco e no vídeo. “Não se trata de um retrato do homem brasileiro, mas de cada um deles, três bailarinos específicos, muito diversos, e através deles eu tenho a impressão de descobrir uma parte do Brasil que ainda desconheço”, afirma o coreógrafo, que já esteve no Brasil ministrando cursos em projetos de dança da coreógrafa brasileira Lia Rodrigues, na favela da Maré, no Rio de Janeiro.

Clique aqui para assistir trechos do processo de criação de "Nós, tupi or not tupi?":