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“Meu trabalho é político, eu venho do Terceiro Mundo”, diz Marcelo Evelin

Por Márcia Bechara

“Um corpo que não fica doente é um corpo preguiçoso”, diverte-se o coreógrafo brasileiro Marcelo Evelin, ao citar o filósofo japonês Itsuo Tsuda (“Diálogo do Silêncio”) durante a coletiva de imprensa de seu novo espetáculo, “Dança Doente”, no festival internacional de dança contemporânea Montpellier Danse, no sul da França, em cartaz até sexta-feira (7).

Marcelo Evelin, radicado há 31 anos na Europa, fixou base em Amsterdã, na Holanda, mas desenvolve também há 10 anos um trabalho com o coletivo Núcleo do Dirceu em Teresina, no Piauí, cidade onde nasceu. Artista independente, Evelin criou sua própria companhia de dança, a Demolition Inc., e é professor na Escola de Mímica da capital holandesa, além de ministrar uma série de workshops e organizar diversos projetos colaborativos em vários países da Europa e também nos Estados Unidos, no continente africano, no Japão e na América do Sul.

Em “Dança Doente”, o coreógrafo brasileiro imagina a dança como “um sintoma, uma alteração da percepção subjetivo de um corpo infectado pelo mundo”. “O trabalho, que estreou há menos de dois meses na Europa, é uma peça que surgiu dos meus próprios questionamentos com a dança. Utilizei um pouco do universo do coreógrafo japonês Tatsumi Hijikata, que morreu há mais de 30 anos e que trabalhou do início dos anos 1960 até os anos 1980. Hijikata criou o butô, a dança das trevas. O butô é uma dança revolucionária, que contradiz, que coloca um corpo em crise, que desestabiliza todas as noções estéticas e conceituais do que seja dança”, explica Marcelo Evelin, em entrevista à RFI, durante o festival Montpellier Danse.

“Eu acho que a gente vive de novo em um momento de crise e eu acho que a arte pode nos ajudar, talvez não a solucionar a crise, mas, pelo menos, a atravessá-la com alguma dignidade, alguma decência. ‘Dança Doente’ vem porque Hijikata trabalhou muito com a noção de doença no corpo como desestabilização, como crise e também como transformação de um estado a outro, e também com a escuridão e a morte. Mas a morte não como uma coisa trágica, sem solução, mas como um outro espaço de existência”, pontua o artista brasileiro.

"Dança Doente", do coreógrafo brasileiro Marcelo Evelin. Dança Doente / Mauricio Pokemon

“Meu trabalho é político, eu venho do Terceiro Mundo”

“Por ocasião das eleições do Parlamento Europeu em Bruxelas, os organizadores me pediram para criar alguma coisa ligada ao corpo. Imediatamente tive vontade de realizar um evento com 50 pessoas, e não queria, como me propuseram, procurar brasileiros já instalados na Europa. Acho muito importante dar a chance de viajar a brasileiros pobres que nunca vieram aqui. Você vê companhias internacionais viajando ao Brasil com grupos de 20 pessoas, ficando em quartos individuais. Por que não os brasileiros? Ah, mas vai custar muito caro. Sim, eu disse, é o preço do trabalho. Eles aceitaram depois de muita negociação, e foi incrível”, conta o coreógrafo.

“Minha ideia era trazer os brasileiros mais pobres e mais feios possíveis, completamente fora do estereótipo internacional. Tem gente que pensa que somos todos lindos, sensuais e que trazemos sempre frutas em cima da cabeça”, ironiza Evelin.  “Escolhi então um grupo de corpos brasileiros bem diversos, corpos que estão no combate diário, na resistência. Trouxe todos para Bruxelas. Meu trabalho é político, eu venho do Terceiro Mundo”, afirma Evelin.  “Agora vivemos um golpe de Estado No Brasil. Retornamos à ditadura, fora Temer! Temos um presidente ilegítimo, Temer é um palhaço, e a situação é realmente horrível, precisamos pensar sobre isso, falar sobre isso. A arte oferece sempre possibilidades de falar de política, a política do corpo”, completa o coreógrafo.

“É evidente que nosso corpo está doente e que estamos sofrendo as consequências, por exemplo, de ter um Donald Trump como chefe do mundo. Ou, por exemplo, qual a sensação de ter Macron – “o menos pior” – no nosso corpo aqui na França? Como vivemos isso? Para mim, ‘Dança Doente’ é isso”, afirma Evelin.

“Nunca seria um príncipe”

“Comecei pelo teatro porque venho de Teresina, uma cidade muito pobre e pequena, não existia naquela época a dança [contemporânea], só a dança clássica. Tentei fazer balé clássico mas muito rápido percebi que não seria um príncipe, que aquilo não ia dar certo”, diverte-se Evelin, provocando risadas na plateia de jornalistas internacionais. “Descobri a dança contemporânea em Paris, quando cheguei em 1987, onde fiquei dois anos. Em seguida fui para Amsterdã, onde comecei realmente meu trabalho como coreógrafo”, explica.

“Nos últimos dez anos fiquei muito atraído pelos corpos que se encontram à margem da sociedade, à margem das condições de vida. Acho que hoje em dia existe uma paranoia de ser bonito, ser magro, ser branco, ter o cabelo liso, todas essas coisas que parecem conferir algum tipo de estabilidade ou segurança. Mas a gente vê que existe uma quantidade enorme de pessoas que não são brancas, lindas e heterossexuais. E existe uma força enorme nestas pessoas, sobretudo porque elas precisam existir e sobreviver num mundo que não aceita, muitas vezes, este tipo de corpo”, finaliza o coreógrafo brasileiro.

Para mais informações sobre a agenda de apresentações de “Dança Doente” e outros espetáculos de Marcelo Evelin, clique aqui.

Clique abaixo para ver um trecho de “Dança Doente”:

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