rfi

Ouvindo
  • RFI Brasil
  • Último jornal
  • RFI em francês
Cultura
rss itunes

Montpellier Danse: encontro de gerações da dança contemporânea na França

Por Márcia Bechara

Termina nesta sexta-feira (7) a 37ª edição do Montpellier Danse, um dos maiores festivais do mundo dedicado às cores da avant-garde da dança contemporânea.

Capitaneado há mais de 30 anos pelas mãos experientes de Jean-Paul Montanari, diretor do festival e referência na história da dança francesa, Montpellier Danse ocupou os pavilhões, teatros e estúdios da Agora, antigo Convento das Ursulinas  do século 14, que se transformou na Cité Internationale de La Danse (Cidade Internacional da Dança, em português), além de espaços cênicos tradicionais desta metrópole francesa quase à beira do Mediterrâneo, como o teatro Opéra Comédie, o Corum – Opéra Berlioz e o Théâtre de La Vignette, além das ruas e parques de Montpellier.

Jean-Paul Montanari, diretor de Montpellier Danse, já havia anunciado a tendência da edição 2017:  “Très bigarré” (“muito colorido”, em português). Da jovem [cabo-verdiana] Marlene Monteiro Freitas, uma das coreógrafas mais celebradas na atual cena contemporânea que, sob uma chuva de aplausos, realizou a estreia mundial de ‘Bacchantes, prelúdio para uma purgação’, até Hans Van Manem, coreógrafo holandês neoclássico de 85 anos, da Companhia Holandesa de balé, passando pela israelense Sharon Eyal [‘Love Chapter 2’], que acaba de ganhar o prêmio da crítica francesa como espetáculo do ano, Montpellier Danse entregou o que prometeu: uma programação vibrante, com três apresentações por dia, fazendo o público se aventurar não apenas pelos meandros da dança contemporânea, mas pelas ruelas, becos e alamedas desta grande cidade do sul da França.

“Quando falo do paralelo com outras culturas, tento, através deste paralelo, obter outras informações. Estamos falando de um ritual que era feito na Grécia Antiga com seus aspectos culturais, mas também estamos falando de coisas que recebemos através de imagens. De fato, abordar "As Bacantes" de Eurípides é colocar em imagens o que está no texto”, explica a coreógrafa Marlene Monteiro Freitas, uma presença meteórica nos últimos dez anos da dança contemporânea mundial. "Quando algo acontece, quando uma imagem acontece, a imagem não é só o que nós vemos, mas como nós a vemos, é a projeção da pessoa sobre aquilo, então, o encontro entre estas duas coisas é uma experiência individual. Pode ser uma experiência coletiva, o público é um coletivo, mas dentro do público tem gente que vai se relacionar com o que está vendo de forma muito diferente. E digamos que as coisas estão colocadas em cena de forma que esse movimento de projeção do próprio público aconteça de maneira mais incisiva", afirma Marlene, que se consagrou com peças como “Paraíso – coleção privada”, “Guintche” e “De marfim e carne - as estátuas também sofrem”.

Dança sul-americana invade o palco

"Autóctonos", de Ayelen Parolin, coreógrafa argentina radicada em Bruxelas. Michel Christelbach

“Hoje em dia vemos aparecer sul-americanos dentro da cena contemporânea, quase sempre ocupada por personalidades europeias ou norte-americanas, e isso é muito novo, porque é extremamente diferente do que estamos acostumados a ver na Europa. Nós nos perguntamos o que é, por exemplo, o trabalho de uma Lia Rodrigues, muito misterioso para nós europeus, e muito interessante", afirma Montanari. E a dança contemporânea brasileira marcou presença na 37ª Edição do Montpellier Danse, recuperando e mesmo desconstruindo estilos variados, entre danças urbanas e tradições seculares.

“Preciso confessar que conheço muito pouco a América do Sul. Ao mesmo tempo que, por exemplo, [o coreógrafo francês] Fabrice Ramalingom trabalhou nos workshops de Lia Rodrigues, dentro das favelas do Rio de Janeiro, eu estive no Brasil apenas uma vez, durante uma semana em São Paulo. Mas sinto que existe alguma coisa absolutamente nova e fora dos padrões ali, com referências que não têm nada a ver com as nossas”, afirma Jean-Paul Montanari. “Desde o trabalho de Lia Rodrigues que mostramos aqui ano passado [“As fábulas de La Fontaine”], notamos uma presença com apelo às culturas ancestrais, que nos fascina aqui na Europa. Parece-nos algo exótico e muito misterioso e que, aos mesmo tempo, coloca em cena uma série de problemas. Uma situação colonizatória oposta à nossa, a maneira como a consciência e a história do corpo é estruturada, a relação com a natureza. A maneira que o corpo sul-americano é estruturado [na dança] é muito diferente da nossa, sentimos isso no palco”, precisa Montanari.

“Nós, tupi or not Tupi”, de Fabrice Ramalingom, coloca em cena três bailarinos urbanos em plena desconstrução dos clichês e posturas típicas do hip hop para criar o portrait de três dançarinos brasileiros. “Na verdade, o que me interessava neste encontro com os dançarinos brasileiros era descobrir nossos pontos em comum. Do ponto de vista coreográfico, os bailarinos já haviam desmistificado os códigos do hip hop em trabalhos anteriores com nomes como Bruno Beltrão, por exemplo. Bruno já havia dissociado com eles a postura da dança hip hop.  E o fato de trabalhar com eles me emancipa também da visão que eu tinha do hip hop, que eu considerava cheio de clichês machistas e mesmo misóginos. Graças a eles, comecei a apreciar este estilo, na verdade, o acesso a essa dança e não tanto a representação presente nesta dança”, afirma Ramalingom.

Arte para atravessar a crise “com alguma dignidade”

O coreógrafo brasileiro Marcelo Evelin, radicado há 31 anos na Europa, que estreou "Dança Doente" na 37 edição do Montpellier Danse, no sul da França. RFI/Márcia Bechara

Fechando a participação brasileira no festival Montpellier Danse, o coreógrafo brasileiro Marcelo Evelin, radicado há mais de 30 anos na Europa, apresentou “Dança Doente”, trabalho que recupera elementos do universo de Tatsumi Hijikata, um dos pioneiros do butô no Japão. “Eu acho que a gente vive de novo um momento de crise e eu acho que a arte pode nos ajudar, talvez não a solucionar a crise, mas, pelo menos, a atravessá-la com alguma dignidade, alguma decência. ‘Dança Doente’ vem porque Hijikata trabalhou muito com a noção de doença no corpo como desestabilização, como crise e também como transformação de um estado a outro, e também com a escuridão e a morte. Mas a morte não como uma coisa trágica, sem solução, mas como um outro espaço de existência”, avalia Evelin.

Montpellier Danse trouxe também estreias mundiais como “Tenworks” (para Jean-Paul), do coreógrafo israelense Emmanuel Gat, em parceria com o Ballet da Ópera de Lyon; “El baile”, de Mathilde Monnier e novos nomes como a argentina radicada em Bruxelas, Ayelen Parolin, com sua crítica social em “Autóctonos” e Nadia Beugré, da Costa do Marfim, que apresentou “Tapis Rouge”, uma referência ao tapete vermelho estendido a chefes de estado recebidos na África para negociar contratos de exploração do continente.

Seja a sociedade do espetáculo, a produção capitalista, o sexo, o corpo em crise infectado pelo mundo, a exploração intercivilizações ou de classes, ou mesmo os eternos dilemas entre morte, vida e amor, os temas da atualidade marcaram presença nesta 37ª edição do festival Montpellier Danse.

Exposição em Paris celebra 40 anos da morte de Maria Callas, "la diva"

Antigo prédio ocupado no centro de Paris vira polo artístico internacional

Grupo carioca apresenta releitura de "Alice no País das Maravilhas" em Edimburgo

Mostra sobre casamentos forçados abre centro de fotojornalismo em Paris

Templo da literatura lusófona em Paris, editora Chandaigne celebra 25 anos

Aos 88, cineasta Agnès Varda explora com fotógrafo JR os vilarejos franceses

Com ares pop, nova geração da música clássica francesa seduz grande público

Festival de fotos espalha 98 exposições por 32 cidades da Grande Paris

Festival "Les Femmes S’en Mêlent" valoriza produção musical feminina na França