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Paris Verão Calor Onda de calor

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Como a França enfrenta o calor após tragédia de 2003

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Paris, 19 de junho de 2017. REUTERS/Charles Platiau

Depois de 2003, os verões mudaram na França. Há 14 anos, uma forte onda de calor pegou o país de surpresa, provocando 15 mil mortes - principalmente de idosos - a mais que o usual durante o período. Desde então, a cada verão, a pergunta é: a França está melhor preparada? Uma coisa é certa, a maior parte da população tem consciência dos riscos e toma cuidados extras.


“Não saio de casa antes das 18h”, disse o aposentado Patrick, de 69 anos, à RFI Brasil. “Fico em casa, de janelas abertas, com as árvores da rua bloqueando o sol”, acrescenta. Maria, de 92 anos, também se refugia na penumbra de seu apartamento no andar térreo. “Quando faz muito sol, eu fecho as cortinas, senão a casa vira uma estufa”, conta. “E não saio”, acrescenta.

Diretivas do governo

A partir de 2004, o governo instaurou um plano nacional canicular, que dura de 1° de junho a 31 de agosto, com vários níveis de alerta, para lidar com os picos de calor.  Atualmente no nível 3, os prefeitos podem adotar medidas de acordo com as necessidades: mobilizar associações, como a Cruz Vermelha, e organizar a estrutura médica. Há também um dispositivo para a transferência de pessoas de risco – bebês e idosos – para locais com ar refrigerado, como supermercados e edifícios públicos.

O nível máximo, o 4, que nunca foi acionado, poderá ser aplicado no caso de uma onda de calor intensa ou de duração excessiva, com casos de secas, falta de água potável, hospitais e funerárias lotados, incêndios de florestas e paralisação de atividades, entre outros sinais.

Crianças em Nice, sul da França, dia 19/06/2017. Reuters

Escolas e hospitais

Escolas também receberam orientações do governo, como diminuir atividades ou manter espaços bem arejados. No entanto, em junho, na região de Toulouse, as temperaturas chegaram a 38°C dentro de salas de aula e muitos pais resolveram não mandar os filhos à escola, provocando críticas às medidas em vigor.

Os hospitais franceses se prepararam com antecedência. As chamadas “agências regionais de saúde” elaboraram um plano de antecipação baseado nas diretivas do governo, com o objetivo de quantificar a capacidade de leitos em hospitais e avaliar as necessidades principalmente de pessoas isoladas ou frágeis em comunidades afastadas, mobilizando associações e voluntários.

A população também toma suas iniciativas. O calor de 2003 acabou com os estoques de ventiladores do comércio, produto que hoje em dia é mais frequente nas prateleiras. Até o leque voltou à moda entre as mulheres neste ano. Na região norte do país foram registrados centenas de casos de hidrantes abertos à força no mês passado.

Crianças e idosos

Marine é babá de três crianças, de segunda a sexta, de 10h a 18h. “Quando faz muito calor, só saímos de casa depois das 17h”, conta à RFI Brasil. Antes, ela passa protetor solar nas crianças – de 10 meses, 20 meses e 3 anos – e protege suas cabeças com bonés e chapéus.

Bebê se refresca durante onda de calor na França. REUTERS/Stephane Mahe

Os cuidados também são redobrados em casas de repouso, que foram os principais focos de vítimas fatais em 2003. A nova legislação exige que estabelecimentos para idosos tenham pelo menos uma sala refrigerada.

A reportagem da RFI visitou uma instituição no centro de Paris que reformou o sistema de ventilação para se adaptar aos picos de calor. “Não tivemos nenhuma fatalidade em 2003, mas mesmo assim o diretor resolveu ir além das recomendações, e instalou ar condicionado em todos os quartos, que pode ser regulado de acordo com a necessidade do residente”, explica um funcionário.

Os cardápios nessa casa de repouso são também adaptados para o verão, com pratos mais leves, com mais legumes. Os idosos recebem, além de água para beber, potinhos de água gelificada, reforçada com proteínas, ideal para os que não conseguem engolir ou que não têm sensação de fome ou de sede.

Idoso em Lyon, em julho de 2015, quando termômetros marcavam quase 40°C. AFP PHOTO / Philippe Desmazes

“Todo ser humano é composto de muita água. Quando faz calor, transpiramos e perdemos água”, explica o médico Jean-Marc Philippe, do centro nacional de crise ligado aos picos de calor. “Em algumas fases da vida, a sensação de vontade de beber é menor que a dos adultos. Os bebês não têm essa sensação e nem podem exprimi-la. Os idosos nem sempre sentem a necessidade de beber, por isso é preciso incentivá-los regularmente a se hidratar”.

Mudanças climáticas

As primeiras ondas de calor na França chegaram antes mesmo do início oficial do verão, no dia 21 de junho. Os cientistas alertam que as ondas de calor serão mais frequentes e cada vez mais longas no mundo todo, seja na França, nos Estados Unidos ou no Brasil. "O aquecimento do planeta é generalizado. Em todos os continentes, de norte a sul, episódios de forte calor vão se tornar cada vez mais comuns", avaliou Michel Schneider, climatologista da Méteo France (instituto nacional de meteorologia), à RFI Brasil.

"Os verões estão se tornando mais longos", constata Jean Jouzel, integrante do Grupo de Experts Intergovernamentais sobre a Evolução do Clima (GIEC). O especialista lembra que, em 2016, a França viveu um período de forte calor em setembro. "Há algumas décadas, não havíamos tido temperaturas altas como as que tivemos no ano passado ou neste ano antes do auge do verão. Claramente isso está mudando", diz.

"Os municípios estão sendo obrigados a criar estratégias e planos para o clima e a energia. O objetivo é preparar as cidades para os efeitos das mudanças climáticas", afirma Erwan Cordeau, encarregado de estudos sobre o clima do Instituto de Planejamento e Urbanismo de Paris e arredores.

Mais verde e mais água

Cordeau salienta que será preciso reencontrar o equilíbrio com a natureza nas cidades. Por isso, aumentar as reservas de água no solo e criar mais espaços verdes nas regiões urbanas fazem parte do plano desenvolvido pelas autoridades francesas.

Em Paris, a prefeita socialista Anne Hidalgo vem tomando várias iniciativas para enfrentar as ondas de calor e também atenuar os frequentes picos de poluição, como a inauguração na terça-feira (18), de piscinas naturais na bacia de La Villette, além de novas áreas verdes à beira do Sena.

O jornal Le Monde revela que a prefeitura da capital também trabalha em um projeto inédito, de identificar as “ilhas de frescor” na cidade, para contrapor as “ilhas de calor urbano” (ICU), fenômeno resultante da densidade das construções e que impede que as grandes cidades se refresquem durante a noite. O estudo analisa de maneira precisa o papel termorregulador dos espaços verdes e meios úmidos.

Prefeitura de Paris mapeia "ilhas de frescor". Reuters/Philippe Wojazer

Le Monde também cita um estudo da revista Nature Climate Change, segundo a qual, até 2100, 5% das cidades mais populosas terão aumentos de temperatura que podem ultrapassar 8º C, se nada for feito contra as “ilhas de calor urbano”.

Padarias e tinturarias

Mas o calor em Paris parece afetar as pessoas de maneira diferente. Anne, que trabalha em uma tinturaria, diz que é mais difícil passar roupas, por exemplo, em épocas de muito calor. Já Pierre, de uma outra tinturaria, diz que não vê diferença nenhuma durante o ano todo. “O problema está na cabeça das pessoas”, diz.

Marc, dono de uma padaria, diz que as temperaturas altas atrapalham o trabalho. “Fica mais difícil”, diz. Mas Frank, que pilota os fornos de uma outra “boulangerie”, não sente a influência da meteorologia. “Trabalho há 30 anos fazendo pães e já me acostumei, o calor do exterior não me afeta”, declarou à RFI Brasil.

O padeiro Franck prepara mais uma fornada de pães. Foto: Patricia Moribe