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Ongs batalham pelo fim de espetáculos com animais marinhos na França

Por Daniella Franco

Há meses, a França é palco de uma forte mobilização contra shows em parques aquáticos utilizando animais marinhos. No total, três estabelecimentos do país realizam espetáculos com baleias e golfinhos. Nas últimas semanas, o trabalho de algumas Ongs de defesa dos direitos animais se intensificou e trouxe resultados: a Justiça ratificou recentemente uma decisão que proíbe a reprodução desses animais em cativeiro, rejeitando, assim um pedido de anulação da medida por parte do parque aquático Marineland, na cidade de Antibes, no sudeste da França. A decisão é considerada como um primeiro passo em direção à proibição desses eventos.

Os três parques aquáticos franceses contam, juntos, com quase 30 golfinhos e quatro orcas para shows aquáticos. Além do sofrimento imposto pelos treinamentos, Ongs denunciam que os animais ficam confinados em aquários considerados pequenos para essas espécies. Muitos morrem devido aos maus-tratos, à alimentação inadaptada e as más condições dos cativeiros, diz a presidente da associação C'est Assez, Christine Grandjean, para quem o sofrimento desses animais é subestimado.

"É uma atividade baseada em mentiras. Dizem às crianças que o golfinho está feliz porque ele parece estar sorrindo, quando na verdade é sua fisionomia que nos dá essa impressão. Por isso, em nossas campanhas, dizemos às pessoas: você se imagina ser separado de sua família e ser obrigado a viver em um lugar onde ninguém fala a sua língua? Ser obrigado a pular durante horas para ter o direito de comer? As crianças, especialmente, compreendem muito rápido que não é possível ser feliz nessas condições", explica.

Além disso, Christine Grandjean considera desrespeitoso obrigar o animal a viver em um aquário e a ter certos comportamentos com o único intuito de divertir as pessoas. Segundo ela, os bichos sofrem com o cloro, desenvolvem doenças renais devido à desidratação, devido à alimentação congelada que ingerem. Muitos têm problemas como stress, depressão e são capazes até mesmo de se suicidar.

"Os golfinhos, como as orcas, vivem toda a sua vida com uma família que eles mesmos escolhem. É errado obrigá-los a viver com grupos desconhecidos em espaços minúsculos apenas para a diversão das pessoas. Tudo o que vemos nos espetáculos não é natural. Um golfinho que nada para trás, por exemplo, jamais veríamos isso em seu habitat natural. Uma orca que pula em uma superfície para fazer uma foto, isso jamais aconteceria na natureza", ressalta.

Parques se dizem vítimas de um complô das Ongs

Os parques negam o sofrimento e os maus-tratos dos animais. Também argumentam que, há décadas, golfinhos e baleias de seus aquários não são mais caçados na natureza, mas são fruto da reprodução em cativeiro. Muitos profissionais reclamam ser vítimas de um complô das Ongs.

Em entrevista à RFI, o diretor do setor dos animais do parque Marineland, Jon Kershaw, defende os espetáculos. Segundo ele, que trabalha com animais marinhos há 40 anos, seria impossível obrigar bichos como golfinhos e baleias a atividades com as quais eles não estariam de acordo.

"Os espetáculos são nossa forma de colaborar e coabitar com os animais e dar a eles tudo o que eles precisam em termos de ginástica cerebral. Esses animais são inteligentes, eles precisam ser exercitados, aprender e ter sucesso. Há pesquisas científicas que mostram todos os benefícios que propiciamos a eles", argumenta.

Kershaw diz que, em décadas de trabalho no Marineland, acumulou um conhecimento importante sobre o comportamento dos animais marinhos. Ele garante que jamais desrespeitaria os bichos pelos quais tem uma grande admiração.

"Esses animais são embaixadores para nós. Não podemos deixar de mostrar sua beleza, inteligência, poder. Seria criminoso não aproveitar que eles estão entre nós para projetar uma imagem muito positiva deles."

Já o presidente da Associação dos Parques Zoológicos da França, Rodolphe Delord, argumentou, em entrevista à rádio France Info, que o fim dos shows pode gerar muitos problemas para os parques, como o futuro dos animais que vivem hoje nos aquários e no desemprego de profissionais que trabalham nesses estabelecimentos.

"Não sabemos o que vai acontecer com esses parques e, sobretudo, com esses animais. São pessoas apaixonadas que trabalham com esses bichos. Também não sabemos o que poderá acontecer com esses profissionais. No momento, estamos surpresos com a decisão da Justiça francesa."

Argumento econômico não pode ser justificativa

Para a Lamya Essemlali, presidente da Sea Shepherd France, uma das Ongs envolvidas na mobilização contra os parques aquáticos, o argumento econômico não serve de justificativa.

"Não podemos continuar uma atividade levando em consideração apenas o critério econômico, senão restabeleceríamos coisas do passado que hoje consideramos abomináveis, como a escravidão, por exemplo. Acredito que, em alguns anos, olharemos para esses parques como olhamos hoje os zoológicos humanos, que tínhamos na França no início do século passado", diz.

A ativista salienta que a Sea Shepherd France não tem como objetivo o fechamento dos parques. Ela defende que os espetáculos aquáticos passem a utilizar outros recursos que não sejam os animais.

"Hoje, a tecnologia virtual e a realidade aumentada, por exemplo, permitem sensações muito mais fortes do que shows com animais condicionados a fazer movimentos estereotipados, e sem o sofrimento dos cativeiros. Ou seja, é preciso que esses estabelecimentos evoluam com os recursos que oferecem a nossa época."

No total, treze países europeus já proibiram shows com animais marinhos. Ainda assim, o parque Marineland promete continuar a batalha a favor da reprodução dos animais em cativeiro e pela continuação dos espetáculos aquáticos.

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