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Supermercados da França geram polêmica com abuso no preço de orgânicos

Por Daniella Franco

A associação francesa de consumidores Que Choisir divulgou na semana passada os resultados de uma pesquisa que mostra os preços abusivos de frutas e legumes orgânicos vendidos pelas grandes redes de supermercados na França. A polêmica reabriu o debate sobre as razões pelas quais esses produtos custam mais do que os convencionais.

Segundo o estudo, em média, frutas e legumes orgânicos comercializados em grandes estabelecimentos franceses são 96% mais caros que seus equivalentes convencionais nos hiper e supermercados, além de serem vendidos por preços mais altos do que em pequenos, médios estabelecimentos e feiras de produtores.

Para o presidente da associação de consumidores Que Choisir, Alain Bazot, não há outra explicação senão a de abuso e desrespeito por parte das grandes redes de supermercados. "Analisamos os preços dos produtos vendidos pelos agricultores para as grandes redes de supermercados e o preço desses mesmos produtos ao chegar às prateleiras desses estabelecimentos. Esses valores são injustificáveis”, critica.

As grandes redes de supermercados detêm hoje a maior fatia das vendas de produtos do setor orgânico na França: 42% deste mercado. Apesar desse amplo domínio e do exagero nos preços, os grandes grupos ainda fazem publicidades em que indicam que comprar legumes e frutas “bio”, como são chamados na França, não pesa mais no bolso do consumidor.

Bazot classifica como “hipócrita” a estratégia das grandes redes de distribuição. “Não é normal que as publicidades desses supermercados digam: ‘comprar orgânicos não custa mais caro’, ‘os orgânicos estão ao alcance de todos’, ‘vamos democratizar os orgânicos’. Os consumidores sabem que isso não é verdade. Sabem também que esse dinheiro não vai para o bolso dos agricultores”, ressalta.

Produzir orgânicos custa mais caro

O preço mais alto dos produtos orgânicos em relação aos convencionais se justifica por um modo de produção artesanal, que demanda mais tempo, mais mão de obra, por ser realizado em espaços menores, respeitando o meio ambiente e o bem-estar animal, e por receber menos apoio financeiro dos governos. Por isso, segundo Florent Guhl, diretor da Agência Francesa do Desenvolvimento e Promoção da Agricultura Orgânica, é normal que os produtos orgânicos custem mais caro aos consumidores.

No entanto, segundo ele, não há razões para que frutas e legumes orgânicos custem mais caro nos grandes supermercados do que nos estabelecimentos de menor porte. “É a mesma produção orgânica, que seja ela vendida em grandes supermercados, estabelecimentos pequenos, feiras de orgânicos ou diretamente nas fazendas. Para cada produção, há o mesmo controle e as mesmas regras a serem aplicadas. É importante que o consumidor saiba que não há duas formas de produção para os orgânicos. Ou seja, não pode nem mesmo haver a justificativa que há diferentes tipos de produtos orgânicos.”

Para Florent Guhl, diante de toda a polêmica, resta uma certeza: “Se quisermos encontrar produtos orgânicos a preços justos, sabemos que isso não acontecerá nas grandes redes. Mas também estamos cientes que os consumidores de produtos orgânicos estão dispostos a pagar um pouco mais caro, com a condição, claro, que esse gasto extra seja repassado aos agricultores e não fique na mão dos grandes grupos de supermercados”.

Consumidor quer retorno

Feira orgânica em Paris Getty Images/Patrick Escudero

A bancária Carolina Bittencourt, brasileira radicada na França, compartilha essa opinião. Ela que compra produtos orgânicos em uma cooperativa de comércio ecorresponsável contou à RFI que está de acordo com pagar mais pelo que consome, mas, em retorno, espera produtos mais saudáveis e que respeitem o consumidor, os trabalhadores envolvidos na produção desses alimentos e o meio ambiente.

Em entrevista à RFI, ela disse não se surpreender com a polêmica. “A grande distribuição não tem muito compromisso em democratizar o acesso aos produtos orgânicos. Então, elas acabam considerando esses alimentos como um produto ‘de nicho’ e cobrando mais caro por isso.”

Para ela, a polêmica dos altos preços nos supermercados serve para conscientizar as pessoas sobre seus hábitos de consumo. “Talvez os consumidores que compram orgânicos em supermercados poderão começar a fazer suas compras diretamente nos pequenos produtores. Essa polêmica vai servir para abrir os olhos das pessoas para consumir de outras formas e até mesmo da própria grande distribuição de repensar seu sistema”, afirma.

Avaliar os sistemas de distribuição e monitorar de forma mais eficaz o comércio dos produtos orgânicos também é uma meta que está sendo reforçada pela Agência Francesa do Desenvolvimento e Promoção da Agricultura Orgânica. “O alerta da associação Que Choisir foi importante. Desde então, estamos focando nosso trabalho nesta questão. Queremos que, no futuro, o consumidor tenha toda a certeza de que quando pagar mais caro pelos orgânicos, o fará com a consciência que esse gasto extra será destinado aos produtores e não às grandes redes de distribuição”, conclui Florent Guhl.

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