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Franceses se sentem mais cansados depois das férias, mostra pesquisa

Por Taíssa Stivanin

O verão está chegando ao fim na França, o ano letivo mal começou, mas a maioria dos franceses que acaba de voltar de férias já está exausta. Esta é a conclusão surpreendente de uma pesquisa realizada no início do mês de setembro pelo instituto Odoxa, a pedido do jornal Le Figaro e da radio France Inter.

A sondagem mostra que 52% dos entrevistados se sentem tão cansados quanto antes do merecido descanso. Um dos motivos, segundo o estudo, é que raramente as férias são um período de real repouso, onde as pessoas aproveitam para comer melhor, praticar esportes ou dormir em horários regulares, medidas que comprovadamente atenuam o cansaço.

Há também a dificuldade do retorno à rotina profissional, explica o psicólogo do trabalho francês Lionel Cagniart Leroi. “O trabalho nos enclausura em um ritmo cotidiano que acaba sendo apropriado pelo corpo e a mente, mas, de uma certa maneira, provoca sofrimento e cansaço. Quando há uma boa adaptação, ele é realizado quase sem reflexão. O que provoca uma espécie de automização cotidiana”, diz. Um processo nocivo que pode, em alguns casos, transformar o cansaço em um mal crônico.

Dormir depois do almoço, um hábito mal visto na França

Durante as férias, avalia o psicólogo, podemos nos dar a alguns luxos inaceitáveis na maior parte das empresas tradicionais. Um exemplo é dormir depois do almoço. “Na França, a sesta não é muito bem vista, é um hábito de gente “folgada”. Durante as férias, temos tempo para nós mesmos, para a família e os amigos, e um pouco de tranquilidade para relaxar. Temos realmente a possibilidade de relaxar no trabalho?”

A adrenalina dos períodos agitados também pode mascarar um cansaço latente. O corpo se coloca em estado de constante alerta e “dribla” a exaustão, que seria um empecilho para atingir certas metas. O relaxamento proporcionado pelas férias traz, então, a consciência desse estado. “Os efeitos da aceleração no trabalho são conhecidos”, diz Lionel Cagniart Leroi. “Ela ajuda a esquecer proibições como pensar, discutir com seu colega, ou mesmo ir ao banheiro, absurdos que existem em certas empresas que incentivam essa aceleração, que bloqueia a reflexão”.

Férias também podem ser cansativas

Mesmo se sentindo tão cansada quanto antes das férias, a responsável de comunicação Emilie Pourquery diz que descansa no trabalho. A explicação é simples: em casa, ela não para. “Depois das férias eu sempre me sinto praticamente tão cansada quanto antes. Não é porque temos poucas férias. Temos sorte de ter cinco semanas de férias na França por ano. É mais uma questão de ritmo e responsabilidade", diz.

"As mulheres continuam a gerenciar o cotidiano, refeições ou as organizar férias, por exemplo. Tradicionalmente as mulheres continuam tomando conta dessas coisas. Por isso que eu, pessoalmente, estou feliz de voltar ao trabalho. Gosto do que faço e sei que minha vida não vai apenas girar em torno das crianças e do resto da família”, completa.

O cansaço depois das férias também pode ser explicado pelo excesso de compromissos no período de repouso. É o caso da correspondente da TV Bandeirantes em Paris, Sonia Blota. “Como todos os anos, tirei 30 de férias e fui para o Brasil. É sempre uma maratona: check up médico, resolver uma outra documentação, visitar família. É gostoso, mas não descansamos”, diz. “O problema também neste ano é que peguei três coberturas intensas: atentado em Barcelona, estreia do Neymar, e visita do Temer na China”, declara.

Direto à preguiça, uma filosofia de vida

Em seu livro “O Direito à Preguiça”, publicado em 1883, Paul Lafargue, que era genro de Karl Marx, critica os efeitos físicos e sociais provocados pelo trabalho. Escrito em uma época onde as jornadas podiam durar 16 horas nas fábricas e não havia direitos trabalhistas, suas ideias ainda continuam atuais. Lafargue defendia 3 horas de trabalho por dia. Para ele, todo as misérias do mundo vinham da paixão do proletariado pela labuta.

Sua teoria de certa forma embasa o conceito de “Décroissance”, em francês. O neologismo, que apareceu na década de 70, prega que o crescimento econômico é uma fonte de problemas para a humanidade e incita os indivíduos a repensar a importância dada ao trabalho em suas vidas ou ao espaço que ele ocupa. Afinal, como diz o provérbio francês, trabalho é saúde, mas não fazer nada, é protegê-la.

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