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Preço desencoraja franceses a irem ao dentista

Por Taíssa Stivanin

Dois em cada três franceses não vão ao dentista por falta de dinheiro. É o que mostra um relatório recente do Tribunal de Contas da União na França, que defende uma participação maior da Seguridade Social, que financia a saúde no país, neste tipo de tratamento.

De acordo com esse documento, o preço de uma coroa pode chegar a € 674 (R$ cerca de 2500) em Paris e € 500 (R$ 1857) no interior, cerca de um terço do salário mínimo no país, onde o reembolso das despesas com saúde é feito pela Seguridade Social e as chamadas “mutuelles”, planos de saúde particulares que complementam parte dos gastos. Em geral, um bom plano cobre 70% do preço.

O engenheiro francês Louis*, que prefere não se identificar, é um exemplo. Ele tem um bom salário e plano saúde, mas também muitas despesas, incluindo altos impostos. No ano passado, apesar da dor dente, preferiu adiar a visita porque a fatura poderia chegar a mil euros. “Não tinha esse dinheiro no momento”, declara.

O tema se transformou até mesmo em uma promessa de campanha do presidente francês Emmanuel Macron, que propôs um reembolso de 100% dos gastos dos franceses com dentistas até 2022, abrindo a concorrência entre planos de saúde.Essa promessa, entretanto, continua apenas no papel.

Enquanto os atendimentos nos hospitais são, na maior parte do tempo, gratuitos para a população, o reembolso de médicos especialistas e dentistas é, em geral, parcial. O que leva uma parcela dos franceses de classe média a ir ao dentista apenas em casos urgentes.

Questão de prioridade

Para Thierry Soulie, representante da CNSD, a Confederação Nacional dos Sindicatos Dentários, os franceses frequentam o dentista na mesma proporção que seus vizinhos europeus com mesmo PIB e hábitos. Ele questiona se o reembolso insuficiente, mesmo que seja uma razão concreta, é de fato o único motivo que leva os pacientes a protelarem a visita ao odontologista.

“Existem pacientes que têm o reembolso integral e mesmo assim não vão ao dentista. Há outras razões. Há países, e talvez a França faça parte, onde para algumas pessoas, a saúde e os dentes, não são uma das principais preocupações.”

A verdade é que, independentemente da saúde, a questão estética não tem o mesmo peso no Brasil e na França. Um exemplo é o caso da cantora Vanessa Paradis, que tem os dentes da frente separados. Mesmo que isso não seja um problema de saúde, em alguns países, como Brasil, o fato dela nunca ter usado um aparelho é surpreendente. Mas na França isso é absolutamente normal.

Reembolso

O cirurgião dentista francês também explica que alguns tratamentos mais sofisticados são pouco valorizados, não levando em conta o custo para o dentista de sua realização, como alguns tipos de próteses e aparelhos dentários para adultos, por exemplo.

“São intervenções que não podem ser feitas abaixo de um determinado custo. Infelizmente, se não há reembolso, posso entender que as pessoas renunciem a esse tipo de tratamento”. Mas, segundo ele, nenhum país na Europa reembolsa a ortodontia para adultos.

Opções gratuitas ou mais baratas criam problemas

Paradoxalmente, para os franceses ou estrangeiros sem acesso à cobertura social, há associações e alternativas gratuitas, que não estão disponíveis para a classe média. Um exemplo é o ônibus social dentário, que existe há 20 anos e circula em Paris com dentistas voluntários a bordo, tratando pessoas em situação extremamente precária.

Quando falta dinheiro, outra opção é o chamado dispensário dentário, mas geralmente o trabalho é feito por profissionais pouco experientes. O artista plástico brasileiro Rafael Suriani passou por uma má-experiência em um tratamento low-cost.

Em 2014, ele vivia na França, onde fez um mestrado na área e perdeu um dente e uma parte de um osso no maxilar depois de um tratamento de canal. Isso porque o dentista esqueceu um pedaço de bisturi dentro da sua boca. Rafael foi para o Brasil, onde os dentistas puderam resolver parte do problema.

Quando voltou consultou um advogado para pedir uma indenização por danos morais, mas só conseguiu mais dor de cabeça. Outro dentista o atendeu mas seu organismo recusou o novo implante. “Acabei indo parar em outro dentista depois de uma recomendação de um tio médico e precisei fazer um implante ósseo e um implante. Foram dois anos de pesadelo, dor, confusão, advogado e € 7 mil de gastos, que começou com a negligência de um dentista”, conta.

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