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Hospitais franceses testam remédio que "apaga" lembranças ruins

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Parisiense homenageia vítimas dos atentados de 13 de novembro de 2015 REUTERS/Gonzalo Fuentes

O projeto, implantado em 2016, utiliza um medicamento antigo, o propranolol, para ajudar as vítimas dos ataques terroristas de 13 de novembro de 2015 em Paris e de 14 de julho de 2016 em Nice a superarem o trauma. A esperança é que o tratamento possa ser utilizado, no futuro, em consultórios, diminuindo o consumo de antidepressivos.


Quatorze centros hospitalares da capital estão participando do estudo, coordenado pelos psiquiatras Bruno Millet, do hospital parisiense Pitié Salpetrière, e o canadense Alain Brunet, da Universidade Mc Gill. Os primeiros resultados dos testes clínicos em 190 pacientes que testemunharam os ataques são positivos. O propranolol, usado para prevenir a hipertensão e o infarto no miocárdio há mais de 60 anos, aparentemente ajuda as vítimas de stress pós-traumático, se for associado à psicoterapia. O tratamento também já foi usado no Canadá em testes com pacientes que sofreram uma traição amorosa.

O princípio é simples, explica Brunet, que iniciou a pesquisa com o medicamento há cerca de 15 anos em seu laboratório em Montreal, no Canadá. “Percebi que a molécula poderia ter um efeito na memória e descobri que, quando as pessoas se lembravam de um evento emocional marcante, sob o efeito do medicamento, essa lembrança, aos poucos, se atenuava”, diz.

Com base em seus estudos, o psiquiatra sugeriu aos hospitais parisienses que propusessem às vítimas dos atentados um tratamento clássico, com antidepressivos, ou o propranolol. A maioria, diz, preferiu apostar na novidade. Em 2016, durante um mês e meio, os pacientes tomaram seis doses semanais do medicamento. Sob o efeito do remédio, eles escreviam um resumo do que vivenciaram em cada sessão. O protocolo foi batizado de "Paris: Memória Viva".

Através desse relato por escrito, os médicos puderam avaliar como as vítimas estavam lidando com suas lembranças e, principalmente, se estavam conseguindo conviver com elas num nível suportável. “A novidade desse tratamento é que, além de não haver a obrigação de tomar um comprimido por dia, não mascaramos os sintomas", explica o psiquiatra.

Remédio bloqueia proteína cerebral que materializa lembranças

Cientificamente, sabe-se que a memória de curta duração é registrada entre duas e cinco horas depois de um acontecimento. Em seguida, o evento precisa ser relembrado e condicionado no cérebro para suscitar emoções negativas. A psicoterapia associada ao propranolol interrompe esse processo.

O remédio bloqueia proteínas do cérebro que servem para materializar sensações emocionais relacionadas a um evento. O objetivo é recondicionar a lembrança no cérebro antes que se torne um trauma. "Ela deve se tornar algo banal”, diz Brunet.

“Não usamos um modelo que reprime a lembrança, pelo contrário. Ativamos a lembrança, diminuímos sua força, e ela é assimilada pelo cérebro. A memória é codificada de outro jeito, o que a impede de voltar à tona como uma espécie de bomerangue”, explica o psiquiatra canadense.

Virando a página

“Quando vivemos uma situação dramática, nos sentimos totalmente arrasados. Uma semana mais tarde, melhoramos um pouco. Seis meses ou um ano depois, podemos virar a página. No caso do stress pós-traumático, as pessoas vivenciam a cena como se ela tivesse acontecido no mesmo dia”, explica.

“Esses pacientes não conseguem virar a página. O que fazemos é ajudá-los a desencadear esse mecanismo cerebral, reativando a lembrança e a recondicionando no cérebro para que o medicamento faça efeito. Só funciona com a memória emocional”, diz.

Algumas pessoas respondem melhor ao tratamento do que outras. “Com um antidepressivo ou outras terapias é a mesma coisa. Mas o tratamento com o propranolol é mais eficiente porque é mais curto”. Segundo ele, o acompanhamento feito com os pacientes depois de seis semanas de tratamento mostrou que não houve recaídas. Em geral, a taxa de sucesso de um tratamento em psicoterapia, lembra Brunet, é em geral de 65 a 70%.

Uso em consultórios

O psiquiatra canadense esclarece que não cabe a ele propor a “generalização” do tratamento, que ainda deve passar pela avaliação e controle das autoridades competentes, nacionais e internacionais. “Não tenho controle sobre isso. Meu trabalho é produzir provas científicas, o que fizemos nos últimos 12 anos em meu laboratório”, declara. "Mas eu ficaria satisfeito de ver que ele possa ser utilizado, no futuro, por psicólogos em seus consultórios."