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Movimento contra uso da pílula cresce na França, revela jornalista em livro

Por Taíssa Stivanin

Durante um ano, a jornalista francesa Sabrina Debusquat, 29 anos, investigou os efeitos que o uso da pílula pode causar em mulheres de diferentes idades e perfis.O resultado dessa pesquisa on-line, que contou com mais de 3616 depoimentos de francesas entre 13 e 50 anos, mostrou que muitas delas estavam insatisfeitas com os efeitos colaterais provocados pelo medicamento.

Em alguns casos mais graves as pacientes foram vítimas de derrames cerebrais ou embolias pulmonares e ficaram com sequelas graves. Há também relatos de morte. A maior parte das queixas envolve as pílulas combinadas, que contêm estrogênio e progesterona, dois hormônios sexuais que bloqueiam a ovulação.

A jornalista, especializada em temas ligados à Saúde, decidiu aprofundar a questão e percebeu que um movimento contra a pílula ganhava força na França, onde 4,5 milhões de mulheres usam o medicamento.

Dessa grande reportagem nasceu o livro “J’arrête la pilule” (Vou parar de tomar a pílula, em tradução livre), lançado em setembro. A obra está provocando uma grande polêmica na França e em breve ganhará uma segunda edição. Uma pesquisa publicada nesta segunda-feira (25) pela Agência Sanitária Francesa de Saúde Pública corrobora a tese da jornalista. O estudo mostra uma queda na utilização da pílula no país. Em 2010, 40,5% das mulheres utilizavam o medicamento, contra 36,5% em 2016.

A RFI Brasil entrevistou a autora, que questiona a pílula como símbolo da liberação feminina, revelando em seu livro detalhes históricos do seu aparecimento, financiado por eugenistas que queriam controlar os nascimentos entre as classes mais pobres.

RFI Brasil - Como você percebeu a existência desse movimento na França que questiona o uso da pílula como método contraceptivo mais prescrito às mulheres?

Sabrina Debusquat: cada vez mais mulheres estão deixando de usar a pílula. Não sou eu que estou dizendo, são as estatísticas que mostram. Em muitos países ocidentais existe uma queda na sua utilização, e isso desde os anos 2000. Trata-se de uma nova geração de mulheres, mais ligadas aos temas ecológicos, que não lutaram pelo direito à pílula e que preferem métodos de contracepção com menos efeitos colaterais ou que sejam menos poluentes.

RFI Brasil – Por que você se interessou pelo assunto?

SD: Sempre me interessei pela saúde das mulheres e percebi, em relação à pílula, que existe um abismo entre o discurso das pacientes que utilizam o medicamento e o discurso médico-científico dominante, que tende a minimizar os seus efeitos colaterais. Aparentemente, muitas mulheres têm efeitos colaterais com a pílula. Isso é o que me interessa. Por que razão existe essa diferença tão grande entre o que as mulheres sentem e o que o dizem os médicos? Um exemplo é a libido. Muitas mulheres me disseram que enquanto tomavam a pílula perdiam totalmente o desejo sexual. E ele voltava quando elas interrompiam o medicamento. Os médicos dizem que isso é “coisa da cabeça delas”.

RFI Brasil – Você chegou a usar a pílula?

SD – Sim, tomei a pílula durante 10 anos. Principalmente a Jasmine, de quarta geração. Parei porque comecei a ter muita falta de ar, sintomas de um início de embolia pulmonar. Interrompi o uso e melhorei imediatamente, inclusive minha libido também melhorou. Depois usei um DIU de cobre, que não suportei, mas mesmo assim usei durante dois anos. Tive muita dor e não suportei. Foi a partir da minha própria experiência que percebi que sem pílula ou DIU não há muitas alternativas às mulheres.

RFI Brasil – No fim do livro você fala sobre algumas pesquisas que vêm sendo realizadas, para melhorar os hormônios. Qual sua opinião sobre esses estudos?

SD – O problema, como eu digo no livro, é que os médicos não ouvem as mulheres. Além disso, temos uma indústria de bilhões de dólares que influencia os estudos. Estamos em um momento inédito da história. Como esse combate feminista é recente, pela primeira vez temos feministas discutindo o assunto, com o intuito de melhorar ou adotar outros métodos de contracepção.

RFI Brasil – A pílula em alguns casos também pode ser usada como medicamento, e não apenas para impedir uma gravidez. Esse é um tema que você não aborda em seu livro.

SD – Não escrevi meu livro para proibir a pílula. Há mulheres que têm endometriose ou o ciclo irregular que beneficiam do remédio. O problema é que nem sempre procuramos a causa real antes de propor o método. Não sou eu quem estou afirmando, mas os próprios especialistas com quem falei reconhecem. Às vezes é mais fácil prescrever a pílula direto do que procurar a causa do problema.

Capa do livro “J’arrête la pilule” da jornalista Sabrina Debusquat Divulgação

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