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Izabella Borges: "existe uma lenda que literatura brasileira não vende na França"

Por Adriana Moysés

A carioca Izabella Borges dirige desde 2015 a coleção "Brésil" na editora francesa Envolume. Tradutora de teatro, poesia, contos e romances, além de professora de português e de literatura brasileira em prestigiadas universidades francesas, como a Sorbonne e a Scienses Po, Izabella já editou em dois anos quatro romances e uma antologia de contos de dez autores brasileiros contemporâneos.

Os livros da coleção "Brésil" foram bem recebidos pelo público e pela crítica, mas Izabella nota que existem "barreiras" no mercado francês à difusão da literatura brasileira. "A principal delas é uma lenda, a fama entre os livreiros franceses que literatura brasileira não vende", disse Izabella Borges à RFI. "Precisamos nos unir contra essa ideia", defende.

Segundo Izabella, a despeito de um grande número de atores que trabalham para popularizar a literatura brasileira na França, e apresentá-la em toda a sua qualidade e diversidade, a distribuição e o contato direto com os livreiros permanece uma dificuldade a ser superada.

Quando aceitou o convite para trabalhar com François Sirot, editor da Envolume, Izabella diz que foi guiada pela vontade de publicar "uma literatura que não entrasse no nicho da reivindicação social nem que correspondesse a um certo pitoresco um tanto esperado pelo público francês".

Distribuição é a maior dificuldade

A sensibilidade e a experiência de Izabella não a traíram. A tradução de "Um Crime Delicado", de Sérgio Sant'Anna, foi o primeiro volume lançado na coleção "Brésil", em 2015, durante o Salão do Livro de Paris.

A história do crítico de teatro Antônio Martins e seu relacionamento com a bela, misteriosa e manca Inês é plena de referências exploradas pela tradutora em suas teses de mestrado e doutorado, que relacionam artes plásticas, teatro e literatura.

“É um texto-chave do Sérgio Sant'Anna, que pode ser lido em diferentes camadas”, destacou Izabella à RFI na época do lançamento. “Tem uma trama romântica, com coloração de suspense, e em outra camada, uma espécie de teoria, de manifesto sobre o modernismo, as obras de arte modernas.” Dois anos depois, "Un crime délicat" está na segunda edição.

Os outros livros da coleção , "Antologia de Contos Brasileiros", com textos de Rubens Figueiredo, Luis Fernando Veríssimo e João Paulo Cuenca, e dois romances de Godofredo de Oliveira Neto, "Amores Exilados" e "Menino Oculto", também tiveram as primeiras impressões esgotadas e estão na segunda tiragem.

O mais recente lançamento da editora é "Capitu Memórias Póstumas", de Domício Proença Filho, atual presidente da Academia Brasileira de Letras. A história de "Dom Casmurro" contada do ponto de vista da personagem Capitu, famosa por seus “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, foi recebida na França como uma espécie de manifesto feminista.

Em várias ocasiões durante a apresentação do romance, também no Salão do Livro de Paris, em março passado, a obra foi elogiada por dar voz à personagem, emblemática mas ofuscada no livro de Machado de Assis.

Izabella faz questão de saudar o apoio da Biblioteca Nacional à tradução e também da Academia Brasileira de Letras na promoção dos escritores brasileiros no exterior. "Existe um enorme número de pessoas trabalhando nessa direção. Na França, editoras como a Actes Sud, que publica o Milton Hatoum, a Métailié, com um longo trabalho focado na literatura brasileira e a recente publicação da Guiomar de Grammont... A editora Anacaona, com dois livros da Conceição Evaristo, associações como a Alter Brasilis, universidades e a Embaixada do Brasil, todos fazendo um esforço admirável para divulgar a literatura brasileira [...] Precisamos nos unir para reverter essa lenda de que nossa literatura vende mal. Eu trabalho particularmente para desenvolver novas parcerias", conclui Izabella.

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