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França Demissão Líbano Saad Hariri Emmanuel Macron Arábia Saudita Irã

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Hariri voltará ao país para festa da independência, anuncia presidência do Líbano

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O primeiro-ministro libanês, Saad Hariri, fala ao telefone enquanto é escoltado por policiais franceses em sua chegada a Paris. AFP

O primeiro-ministro do Líbano, Saad Hariri, desembarcou na manhã deste sábado (18) em Paris proveniente da Arábia Saudita. Ele almoça com o presidente francês, Emmanuel Macron, no Palácio do Eliseu. Pouco depois de Hariri chegar à capital francesa, a presidência do Líbano publicou um comunicado informando que o premiê pretende voltar a Beirute na próxima quarta-feira (22), para participar da festa da independência.  


A França tenta mediar a crise política aberta com a demissão inesperada de Hariri durante uma visita à capital saudita, no início do mês. O anúncio da renúncia em Riad, há duas semanas, e o fato de o premiê não ter regressado ao Líbano para formalizar a demissão ao presidente da República, provocaram especulações. O presidente libanês, Michel Aoun, chegou a dizer que Hariri era "refém" do governo saudita, o que Hariri negou sem convencer os libaneses.

O primeiro-ministro, que tem dupla nacionalidade saudita e libanesa, e familiares vieram para a França a convite de Emmanuel Macron. O presidente francês propôs essa alternativa como uma saída ao cenário suspeito de uma suposta retenção de Hariri pelo príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman.

O pano de fundo dessa nova crise no Oriente Médio é a luta pela hegemonia na região, protagonizada pela monarquia saudita sunita e o Irã, que apoia o poderoso movimento xiita libanês Hezbollah.

Há mais de uma década, o Líbano é marcado por uma divisão profunda entre o campo liderado por Hariri, um sunita apoiado pela Arábia Saudita, e aquele liderado pelo Hezbollah xiita, apoiado pelo regime sírio e pelo Irã.

Hariri justificou sua renúncia alegando que o Hezbollah estaria controlando o Líbano e que temia por sua segurança. "Senti o que se tramava nas sombras para atacar minha vida", declarou. Ele alegou que seu país vive uma situação similar à registrada antes do assassinato de seu pai, o também ex-primeiro-ministro Rafic Hariri, em 2005. Cinco membros do Hezbollah são acusados pelo assassinato.

Irã critica França por receber Hariri em Paris

O governo iraniano acusou a França de alimentar as tensões no Oriente Médio, ao convidar Hariri para uma visita.

Na sexta-feira (17), Macrou defendeu uma revisão da política regional e do programa balístico iraniano, que não estaria sendo bem controlado. Reafirmando sua vontade de dialogar com o Irã, o líder francês pediu a Teerã que tenha uma estratégia regional "menos agressiva" na região.

A reação do guia supremo iraniano, Ali Khamenei, não tardou. Em entrevista à TV estatal, Ali Akbar Velayati, assessor do guia supremo, declarou neste sábado (18) que o Irã "não depende da autorização de terceiros para tomar decisões na área de defesa ou em seu programa balístico". "É evidente que nossa resposta às propostas da França de negociar a questão balística e a política regional do Irã é negativa", enfatizou o representante iraniano.

As últimas 24h foram marcadas por trocas de farpas entre Paris e Teerã. “Nos parece que a França tem uma visão parcial das crises e catástrofes humanitárias no Oriente Médio. De forma intencional ou não, essa posição alimenta os conflitos regionais”, declarou o porta-voz do ministério iraniano das Relações Exteriores, Bahram Qasemi.

O comentário de Teerã foi feito após a confirmação de que o premiê libanês iria “passar alguns dias na França”. Macron refutou a hipótese de que estaria oferecendo algum tipo de exílio a Hariri.

França tenta se consolidar na cena internacional

Segundo analistas, ao convidar Hariri, Macron marca um ponto estratégico. “A diplomacia francesa conquistou uma vitória simbólica”, comenta Stéphane Malsagne, historiador especialista do Líbano e professor na Sciences Po. “Basta saber agora se a mediação francesa será eficaz. A verdadeira questão agora é o que vai acontecer quando Saad Hariri voltar para o Líbano”, completou.

Mesmo assim, a cartada de Macron pode ajudar Paris a se impor de forma perene no Oriente Médio. “Diante da ausência de mediação do Ocidente, principalmente da parte dos Estados Unidos, havia uma necessidade aguda de alguém que adotasse esse papel em uma região literalmente em chamas”, analisa Maha Yahya, diretor do Centro Carnegie do Oriente Médio, em Beirute.