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Em novo trabalho, coreógrafo Jérôme Bel brinca com balé clássico

Por Patricia Moribe

Há 25 anos Jérôme Bel vem chacoalhando o mundo da dança, em vários sentidos. Primeiro com uma coreografia para objetos cotidianos, como um aspirador de pó, um livro. Depois, com dançarinos nus no palco, escrutinando corpos, babando e urinando “ao vivo”. O coreógrafo francês, de 53 anos, é um dos destaques do Festival de Outono, que acontece em Paris e arredores.

A fama veio como um torpedo com o segundo espetáculo, batizado com o seu próprio nome. Desde então ele vem criando montagens que nunca passam despercebidas e sempre surpreendem. Pode ser o monólogo de uma bailarina da Ópera de Paris, que conta como nunca chegou a ser “estrela”, ou um grupo de deficientes em cena.

Ou seu último trabalho, uma coreografia para o Balé de Lyon, em que os dançarinos repetem ad infinitum um mesmo movimento, ao som de um trecho de "Lago dos Cisnes", com humor e irreverência afinados. Isso na sequência de duas peças de dois monstros sagrados da dança contemporânea, "The Second Detail", de William Forsythe e "Set and Reset/Reset, de Trisha Brown.

Dança mesmo, coreografia e tal, quase nada. Jérôme Bel ficou conhecido como o criador da “não-dança”, um artista conceitual e cerebral, leitor ávido de Barthes, Foucault e Lévy-Strauss, um “enfant terrible”. O que está lendo do momento? Ele tira da sacola “A Arte como Experiência”, do filósofo pragmático John Dewey. “São 500 páginas em que ele destrincha a experiência de ver algo”, explica rindo.

No Brasil mesmo ele já apresentou dez de seus trabalhos. Por que não sua criação mais polêmica, que leva seu próprio nome, “Jérôme Bel”? Ele responde:

“É uma boa pergunta. Para começar, mostrar dez espetáculos em um país é maravilhoso. O Brasil sempre foi muito acolhedor, fez parte da minha primeira turnê internacional. Há uma forma de reconhecimento mútuo. Gosto muito de lá, vou desde os anos 1990. ‘Jérôme Bel’ não é para um grande público e viajar para isso com uma trupe de quatro dançarinos seria um problema. Ecológico, para começar. Talvez por ser uma peça tão radical, possa amedrontar muita gente”.

Jérôme Bel critica a anulação da exposição Queermuseum, em Porto Alegre, e a reação violenta contra a vinda da feminista americana Judith Butler ao Brasil. “É horrível essa onda evangélica. A liberdade individual deve ser respeitada. Mas isso não quer dizer que uma coisa se imponha à outra”, diz. 

Todos nus

Em “Jérôme Bel”, uma idosa entra no palco escuro carregando uma lâmpada ligada a um longo fio. Bach é cantado “a capella”. Um homem e uma mulher escrevem com giz ao fundo, dados pessoais, como nomes, idade, medidas, saldo no banco. Em seguida, investigam seus próprios corpos, tocando, puxando e esticando. Eles urinam e babam. Todos nus.

Na época de lançamento, a polêmica foi grande, atraindo um grande público. “Foi muito problemático no começo, muito escândalo, muita repercussão e que acabou me ajudando muito”, ironiza Bel. “O interessante é que ninguém ficava indiferente. Ou a pessoa adorava ou detestava. Achavam genial ou horrível. Foi muito falada, as pessoas queriam ver, ter uma opinião”, conta.

Hoje em dia, às vezes, um ou outro espectador desavisado se irrita, se levanta e vai embora. “Felizmente, 23 anos depois, tudo ficou mais calmo. Porque pessoas como você [jornalista] fizeram seu trabalho, eu pude falar, explicar, as pessoas agora têm uma ideia do que vão ver. Foi tão falada que já não era mais uma surpresa. Na época, eu era um desconhecido, era meu segundo trabalho, o primeiro ninguém tinha visto – as poucas que viram, odiaram. Na minha segunda tentativa, as pessoas vinham sem saber o que iam ver. Então era um choque, um mergulho no desconhecido. Depois, a montagem entrou no repertório da arte, da cultura. Não há mais a surpresa, não há o choque e assim o espectador pode apreciar melhor as mensagens”.

"Querer chocar é absurdo"

Jérôme Bel tem horror ao conceito de arte para chocar: “Meu objetivo inicial não era chocar, isso não me interessa. É absurdo, ridículo, uma arte feita para chocar. Eu queria mostrar coisas significativas, precisas sobre o ‘corpo social’ etc. Hoje as pessoas compreendem o sentido, ainda bem. E acho que as pessoas confiam em mim. Não em mim, mas nessa espécie de entidade artística ‘Jérôme Bel’. E como agora eu sou conhecido, eles vão assistir e refletir em cima. Antes, eu era um desconhecido e as pessoas imediatamente me agrediam. ‘É um desconhecido, portanto, um incompetente’. Agora eu tenho uma margem de tempo maior para que as pessoas reflitam, se questionem e então decidam se gostam ou não. Isso ajuda na leitura do trabalho. Há uma certa decepção que não exista mais escândalo, mas posso garantir que eu e os dançarinos estamos muito mais tranquilos, não era nada divertido”.

O corpo como ele é

Três dos artistas do espetáculo “Jérôme Bel” são os mesmos há 23 anos, o que acrescenta um charme a mais para a montagem, que escancarou as portas para o nu na dança. “O nu sempre foi banalizado, vivemos numa sociedade pornográfica, todos nascemos nus, mas a questao do nu que eu coloquei em cena é que o nu não era erótico, e isso surpreendeu, era um nu discursivo”, diz Bel. “Há um nu construído pela sociedade, pela cultura. Mas o meu objetivo era ir contra a representação dominante do homem atleta e da mulher objeto sexual”.

O coreógrafo explica que essas representações dominantes do homem e da mulher eram redutoras demais e que buscou alternativas e novas representações. “Os corpos que coloco em cena são medianos. Era o que eu queria. Gente não muito bonita nem muito feia [risos]. É na zona em que gosto de trabalhar, no mediano, sem nada de excepcional, como somos todos nós”.

A seguir, Bel fala do nu como forma de auto-descobrimento: “Admito que fui um pouco inocente, percebemos que durante o espetáculo muitas pessoas ficaram chocadas. Mas para nós, do mundo da dança, o corpo é nosso instrumento, nós o conhecemos, ele não é misterioso ou escondido, não é sagrado. Ao contrário, sentimos dores e prazeres. Ao mostrar este espetáculo percebi que muita gente não conhecia o próprio corpo, isso levava a muitas reflexões interessantes”.

Um outro elogiado trabalho de Bel chama-se “Véronique Doisneau” (2006), nome de uma bailarina do corpo de baile da Ópera de Paris, às vésperas de se aposentar. Sozinha no palco, ela faz um monólogo pungente sobre sua carreira sem brilho – até o momento de estrelar justamente a montagem que leva seu nome.

Brasil, palco privilegiado

No Brasil, o conceito teve uma versão brasileira, “Ana Torres”. Bel conta que quem o motivou a fazê-lo foi sua amiga, a coreógrafa brasileira Lia Rodrigues. “Ela me falou do balé do Teatro Municipal do Rio. E lá encontrei essa mulher extraordinária. Eu vi na hora que era ela, ao mesmo tempo em que ela dizia que não era ela”, conta rindo. O vídeo sai em breve, avisa o artista.

No Brasil, o artista coreógrafo já apresentou “Gala”, “Disabled”, “Cédric Andrieux”, “Isabel Torres”, “Pichet Klunchun and Myself, “Le Dernier Spectacle”, “Véronique Doisneau”, “The Show Must Go On”, “Shirtology” e “Nom donné par l’auteur”.

Jérôme Bel é um dos destaques do Festival de Outono, evento que todos os anos traz uma grande seleção de espetáculos e instalações artísticas a Paris e subúrbios.

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