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Laicidade à francesa à prova de tensões religiosas

Por Adriana Moysés

A França celebra neste sábado (9) os 112 anos da lei que separou a Igreja Católica do Estado, conhecida como a Lei da Laicidade de 1905. No momento em que crescem as tensões entre católicos, muçulmanos e judeus nascidos e criados sob os mesmos valores do Estado laico francês, a revista semanal L'Obs questiona o que deve ser feito para que escolas, hospitais públicos e o ambiente de trabalho na França continuem a ser espaços impermeáveis à prática religiosa.

Em seu editorial, o fundador da L'Obs, Jean Daniel, que presenciou várias décadas de debate entre fé e razão, entre poder e submissão, entre teologia e política, lembra que a Constituição francesa de 1958 declara em seu artigo primeiro que a França é um país indivisível, laico, democrático e social. E assim deve continuar, uma pátria para os franceses de todas as religiões, regida pelo princípio da laicidade. "O problema atualmente é o islamismo radical, que propaga uma energia mortífera, e não deve de maneira alguma comprometer o ensino laico na escola pública, que deve permanecer livre, aberta, republicana e obrigatória", preconiza Jean Daniel.

A L'Obs constata, em reportagens realizadas em hospitais e escolas públicas, que nos últimos anos certas tradições muçulmanas se transformaram em reivindicações religiosas. Por uma questão de higiene e de segurança dos pacientes contra infecções, os hospitais foram obrigados a "legislar". Enfermeiras de centro cirúrgico muçulmanas queriam usar o véu islâmico embaixo da touca esterilizada, o que foi proibido. Os homens barbudos tiveram de se contentar com barbas de 4 cm de comprimento no máximo.

Professores recebem treinamento para explicar laicidade

Na rede de ensino público tem sido mais complicado pela imaturidade natural dos adolescentes. Segundo o governo francês, 150 mil professores, dos 800 mil em atividade, foram treinados para discutir a questão da laicidade com os alunos. Em uma atitude muitas vezes conciliadora, os professores e diretores de estabelecimentos tentam mostrar aos estudantes muçulmanos que o objetivo de proibir o uso de um véu pelas meninas ou de um tapete de orações por um menino não é entrar em conflito com a identidade deles, apenas focar o interesse comum, que é a neutralidade religiosa diante do ensino.

No caso do setor privado, a laicidade sequer se aplica: as empresas francesas podem decidir em seus regulamentos internos se toleram ou não símbolos e práticas religiosas durante a jornada de trabalho. Uma pesquisa do Instituto Randstadt revelou recentemente que os conflitos provocados por solicitações religiosas atingem apenas 7,5% dos empregados. A grande maioria dos entrevistados (72%) estima que as empresas não devem se adaptar à religião.

Macron sai pela tangente para evitar debate incendiário

Em uma matéria dedicada à posição do presidente Emmanuel Macron sobre o assunto, a L'Obs revela que ele pediu para ser batizado aos 12 anos e se declara um herdeiro da cultura judaico-cristã. De acordo com a L'Obs, Macron não fará nenhum discurso sobre o assunto neste sábado, por uma vontade deliberada de não participar de um debate incendiário.

Na visão de Macron, a laicidade à francesa é antes de tudo uma liberdade e não uma restrição. Ele admite que as pessoas possam sentir a necessidade de uma transcendência religiosa ou espiritual, à condição de respeitarem as leis e de não violar a ordem pública. Para Macron, o Estado é laico, não a sociedade.

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