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Novos movimentos antirracistas contra a miscigenação dividem a França

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Coletivo de feministas negras Mwasi, em passeata do 7 de março de 2016, em Paris. facebook mwasi

Novos militantes antirracismo franceses estão dividindo a opinião pública com comportamentos e ideias contra a miscigenação. Enquanto a necessidade de se criar espaços e debates exclusivos a vítimas de racismo se impõe, pairam dúvidas se excluir a população branca das discussões pode prejudicar a luta contra o problema.


Há cerca de dois anos, iniciativas e eventos que servem para debater o problema do racismo na França passaram a contar com grupos reservados apenas aos “racizados” - como os novos movimentos denominam as vítimas de racismo na França. A polêmica começou com o Festival Afrofeminista Nyansapo, em maio deste ano, que correu o risco de ser cancelado por ordem da prefeitura de Paris, porque utilizaria espaços públicos para eventos reservados apenas para mulheres negras. Finalmente, a prefeita da capital francesa, Anne Hidalgo, estabeleceu que todos os eventos com restrição de público deveriam acontecer em caráter privado.

Nesta semana, um outro evento, na área da educação endossou a polêmica sobre eventos “não-mistos”. O sindicato francês SUD-Education 93 realizou um estágio para professores e educadores sobre o estado do racismo nas escolas francesas. A formação, que contava com dezesseis workshops, ofereceu também dois ateliês “não-mistos”, ou seja, exclusivamente para os “racizados”. Entre os assuntos abordados nessas duas sessões fechadas aos professores e educadores negros e árabes, estava o “Racismo de Estado na Sociedade e na Educação Nacional”, que levou o ministro francês da Educação, Jean-Michel Blanquer, denunciar o sindicato por difamação.

Espaços seguros para as vítimas do racismo

A socióloga Nacira Guénif, professora da Universidade Paris VIII, que participou do evento promovido pela SUD-Education 93, recusa o rótulo anti-miscigenação incutido aos novos movimentos antirracismo. “Essa é uma acusação metabolizada pelo discurso político hegemônico branco na França. Vejo que essa percepção é compartilhada principalmente por aqueles que, dentro de uma má-fé, continuam insistindo que a sociedade francesa concede todos os direitos a todos os cidadãos, quando o que vemos todos os dias é exatamente o contrário, inclusive nas próprias leis”, afirma.

Por isso, Guénif defende a necessidade da realização de eventos e debates exclusivos aos “racizados”. Para ela, muitas questões relativas ao racismo dizem respeito unicamente às vítimas deste problema. “São simplesmente espaços e momentos suficientemente seguros para que os ‘racizados’ possam falar daquilo que vivem. Não se trata de criar eventos específicos para essa população, mas sessões destinadas unicamente a eles dentro desses eventos”, argumenta.

Já Dominique Sopo, presidente da maior ONG contra o racismo da França, SOS Racismo, se opõe a eventos não-mistos, que classifica de “irresponsáveis”. “Se as pessoas querem se reunir a título privado, ninguém vai proibi-las. Mas realizar um evento público - como o proposto pelo sindicato SUD-Education 93 -, significa fazer uma triagem dos participantes com critérios raciais. Ou seja, é uma afronta a toda a base da legislação das lutas contra a discriminação, que proíbe, precisamente, a prática da segregação”, afirma.

De acordo com Sopo, a luta contra o racismo na sociedade só evoluirá quando o debate mobilizar o conjunto da população, independente de suas origens. “O objetivo do antirracismo é a igualdade entre os indivíduos. Todas essas pessoas que pretendem lutar contra esse problema colocando barreiras raciais deveriam lembrar do sucesso, nos anos 60, dos movimentos de direitos cívicos nos Estados Unidos que tiveram a inteligência e estratégia de engajar os indivíduos quaisquer que fossem suas origens para mostrar qual era o verdadeiro objetivo do combate e fortalecendo a luta com a integração de diferentes partes da população”, cita.

Guénif também concorda que a evolução da luta contra o racismo deve congregar toda a sociedade. “O que não é possível é continuar dentro de uma lógica do início dos anos 1980 na França, inventada pelo governo, que instituiu que a maioria branca sabia o que era melhor para as pessoas vítimas de racismo – e isso foi um fracasso. Cabe unicamente aos ‘racizados’ determinar em quais condições podem e devem se aliar à maioria privilegiada”, ressalta.

“Miscigenação é genocídio”

No Brasil, a ideia da não-miscigenação vem sendo defendida por alguns movimentos negros. Na Marcha da Consciência Nega no último 20 de novembro, militantes carregaram uma faixa com os dizeres: “Miscigenação também é genocídio”, o que chocou parte da opinião pública no Brasil.

A coordenadora de Promoção da Igualdade Social de Tubarão (SC) e militante afrofeminista, Aleida Cardoso, defende a união da sociedade para que a luta contra o racismo evolua. No entanto, para ela, é preciso observar e ponderar as várias questões em torno desta temática. “Por trás da miscigenação, há uma opressão histórica. É preciso considerar que a miscigenação brasileira começou na época do colonialismo. A violência contra as mulheres negras por homens brancos daquela época é inegável, ela realmente aconteceu”, salienta.

A militante sublinha que movimentos negros mais radicais, que pregam a separação racial, ainda são pontuais no Brasil. Em contrapartida, segundo ela, esse comportamento também está relacionado à normalização do racismo na sociedade brasileira, algo que “está se tornando insuportável”. “A verdade é que o preconceito racial não é levado a sério por todos no Brasil. A omissão e a opressão que vivemos diariamente, aliada à falta de políticas públicas para combater esse problema, é algo realmente revoltante”, justifica.

Para o presidente do SOS Racismo, a radicalização dos movimentos coloca a eficácia do combate em risco. “Esses grupos mais radicais não são tão relevantes no plano da militância, mas têm força no âmbito midiático. O problema é que esse comportamento impede um verdadeiro confronto com instituições ou com a sociedade como um todo. Sem confronto, não há debate, e isso enfraquece a causa”, avalia.

O objetivo dos movimentos, lembra Sopo, deve ser “viver juntos dentro de uma base de igualdade”. “Não me interessa e não milito para que os brancos vivam só entre eles, para que os negros vivam só entre eles, para que os árabes vivam só entre eles. O antirracismo, para mim, é um movimento de emancipação e de florescimento, onde todos os indivíduos podem e devem ser livres”, conclui.