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França reduz velocidade nas estradas para salvar 400 vidas por ano

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400 mil quilômetros de estradas vicinais da França terão limite de velocidade a 80 km/h. AFP

O governo francês anunciou nesta terça-feira (9) um novo plano para a segurança nas estradas, depois que o número de mortos no trânsito voltou a aumentar há três anos. Entre as principais medidas, está a redução do limite de velocidade de 90 km/h para 80 km/h nas estradas vicinais com duplo sentido: decisão que pode salvar até 400 vidas a cada ano.


"Impopular, mas necessário", é como o primeiro-ministro francês, Edouard Philippe, classifica o novo plano para a segurança nas estradas. "Se para salvar vidas é preciso ser impopular, eu aceito", reiterou o premiê em uma entrevista ao Jornal du Dimanche, no último domingo (7), com o objetivo de preparar o terreno ao anúncio feito nesta terça-feira (9), após o Conselho Interministerial de Segurança Rodoviária.

As principais medidas do novo plano consistem na redução do limite de velocidade de 90 km/h para 80 km/h nas estradas vicinais da França, a instalação de bafômetros que impedem o funcionamento dos veículos de motoristas com histórico de embriaguez na direção, além de aumentar as multas para a utilização de celulares no volante.

Antes mesmo do anúncio, as medidas já causaram a indignação dos motoristas franceses, além de várias críticas da direita e da extrema-direita do país. A primeira alega que o plano revelado pelo governo não passa de uma estratégia de marketing, enquanto os ultraconservadores do partido Frente Nacional acreditam que a diminuição do limite de velocidade penalizará, sobretudo, os moradores das zonas rurais.

Até 400 mortes a menos por ano

Com 3.477 vítimas fatais nas estradas em 2016, a França registrou um aumento no número de mortes em acidentes de trânsito pelo terceiro ano consecutivo. O premiê Edouard Philippe acredita que a redução do limite de velocidade de 90 km/h para 80 km/h nos 400 mil quilômetros de estradas vicinais do país, evitará de 200 a 400 mortes por ano.

Para chegar a essa estimativa, o governo francês se baseou em dois estudos. O primeiro, realizado nos anos 1980 pelo pesquisador sueco Goran Nilsson, que aponta que cada 1% da velocidade diminuída no trânsito representa 4% a menos de vítimas fatais. O segundo, experimental, testou o limite de velocidade de 80 km/h em três estradas francesas entre 2015 e 2017 e foi fundamental para a criação do novo plano de segurança nas estradas.

A associação francesa Prevenção Rodoviária apoia a iniciativa do governo. "Em um choque, esses 10 km/h a menos podem realmente fazer diferença e resultar em ferimentos leves no lugar de ferimentos graves e mortes. Essa diminuição representa em uma quantidade de energia importante em um impacto", avalia o diretor de pesquisa da instituição, Christophe Ramond.

O especialista em segurança das estradas lembra que a instalação de bafômetros nos veículos de motoristas com histórico de embriaguez na direção também é uma medida essencial do plano. "Hoje, na França, os ônibus que fazem trajetos fora das cidades já contam com esse mecanismo. Ou seja, os motoristas não podem dar a partida nos veículos caso o teste detecte um nível de álcool superior a 0,8 g/l. Já se discutia há alguns anos a possibilidade de instalar bafômetros nos carros dos motoristas penalizados por embriaguez - cuja eficácia já foi provada nos Estados Unidos -, mas, até hoje, as autoridades francesas não haviam conseguido aprovar a decisão", diz.

No entanto, para Ramond, o grande desafio do governo será conscientizar os motoristas sobre o perigo da utilização dos telefones celulares no trânsito. A legislação francesa prevê atualmente uma multa de € 135 (cerca de R$ 523), além da perda de três pontos na carteira de motorista. "Talvez o fato de aumentar o valor da multa possa sensibilizar os motoristas, mas a verdade é que não há uma solução completamente eficaz, considerando que o uso de smartphones é cada vez maior na França", ressalta.

Motoristas revoltados

De acordo com uma pesquisa publicada pelo Instituto Harris Interactive nesta terça-feira, 59% dos franceses são contra a diminuição de 90 km/h para 80 km/h nas estradas vicinais, enquanto que 83% acreditam que o novo plano do governo servirá, sobretudo, para lucrar com as multas.

As associações de motoristas endossam o coro. Para o presidente da associação francesa 40 Milhões de Automobilistas, Daniel Qero, as novas medidas do governo são "repressoras". "Não há razão para limitar a velocidade, já que os veículos e a qualidade das estradas melhoraram", argumenta. Segundo ele, uma petição realizada pela organização já reúne mais de 600 mil assinaturas contra o plano do executivo francês.

Já, segundo Ramond, é preciso se habituar. "A reação das pessoas é a mesma a cada vez que novas medidas são estabelecidas. Nesses últimos 40 anos, foram criadas leis para limitar a velocidade, impedir que os motoristas dirijam embriagados, obrigar que as pessoas utilizem cintos de segurança e que os motociclistas utilizem capacetes. A cada mudança, uma parte dos motoristas reclamam, mas depois que os resultados se mostram positivos, as pessoas se convencem da necessidade de priorizar a segurança", conclui.