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Estupro assédio sexual Feminista Polêmica

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Assinante de manifesto choca feministas ao dizer que mulher "pode ter orgasmo durante estupro"

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Debate no canal BFMTV reuniu a feminista Caroline de Hass e a apresentadora de rádio Brigitte Lahaie. 10/01/2018 Captura de vídeo

Os dois manifestos divergentes publicados nas últimas 48 horas na França sobre o assédio e a violência sexual contra mulheres tiveram forte repercussão em um debate na TV na noite de quarta-feira (10). Nesta manhã, a imprensa lamenta uma polêmica "binária", "polarizada" e "sem nuances" entre dois grupos com visões divergentes sobre as relações entre homens e mulheres.


A apresentadora de rádio e ex-atriz de filmes pornô Brigitte Lahaie, uma das assinantes, assim como Catherine Deneuve, do texto que defendeu a liberdade dos homens de "importunar as mulheres", chocou a feminista Caroline de Haas na TV ao afirmar que "uma mulher pode gozar durante um estupro". Elas aceitaram participar de um programa no canal de televisão francês BFMTV. Diante da afirmação de Lahaie, Haas ficou momentaneamente sem reação.

A militante já tinha reagido negativamente ao artigo publicado no Le Monde acusando o grupo de cem mulheres de terem se aliado aos agressores. Haas foi vítima de um estupro quando tinha 15 anos.

A ex-atriz de filmes pornô, de 62 anos, um ícone dessa indústria nas décadas de 1970 e 1980, período áureo da libertação sexual na França, hoje anima um programa de rádio sobre relacionamento e sexualidade, com milhares de ouvintes. Lahaie é popular no país e conta com o respeito de médicos, sexólogos e psicólogos, entre outros profissionais, que diariamente respondem ao vivo às questões dos ouvintes.

"Eu acho que o verdadeiro problema é a questão da construção da identidade sexual da mulher e do homem. As mulheres têm uma revanche para conquistar, porque ouviram tantas vezes que eram o sexo frágil, quando na minha opinião somos nós que detemos o poder. Podemos fazer o que quisermos de um homem. [...] Não acho normal pensar que se uma mulher não chega ao orgasmo, a culpa é do homem. [...] Eu defendo que as mulheres assumam o poder sobre sua sexualidade e seus corpos", defendeu Lahaie.

A essa argumentação, Caroline de Haas respondeu que as violências impedem as mulheres de usufruir do prazer, ao que Lahaie retrucou que até era possível ter um orgasmo durante um estupro. "A sexualidade é algo muito complexo e subjetivo", acrescentou a ex-atriz. Houve um rápido mal-estar no ar e os mediadores do debate mudaram de assunto.

"Estou sem palavras", diz ativista

A reação da feminista à afirmação provocante de Lahaie veio depois da emissão de TV, em dois tuítes. "Estou sem palavras. #BalanceTonPorc" (em português, #EntregueSeuPorco), escreveu Haas, insistindo na necessidade de as mulheres denunciarem publicamente as agressões sexuais. No segundo tuíte, ela argumentou que "o corpo de uma vítima de violência pode reagir de diferentes formas, o que não altera o fato de o estupro ser um crime". "Fazer uma afirmação desse tipo no momento em que falávamos de prazer sexual gera a sensação de banalização da violência", afirmou Haas.

A imprensa francesa deplora nesta quinta-feira (11) o tom "sem nuances" dos dois manifestos. Vários editorialistas apontam uma polêmica polarizada, alimentada por acusações mútuas e sem capacidade de escuta de lado a lado.

O jornal Libération desta quinta revela que algumas mulheres que assinaram o texto denunciando uma "onda de puritanismo" após o escândalo envolvendo o produtor de cinema americano Harvey Weinstein, publicado Le Monde com o apoio de Deneuve, sequer tiveram acesso à versão final. Segundo elas, que preferiram não se identificar para a reportagem do Libération, as autoras “misturaram tudo”. Redigiram o artigo Sarah Chiche (escritora e psicanalista), Catherine Millet (crítica de arte e escritora), Catherine Robbe-Grillet (atriz e escritora), Peggy Sastre (autora, jornalista, tradutora) e Abnousse Shalmani (escritora e jornalista). Deneuve e dezenas de outras mulheres endossaram as colocações.

Libération assinala que as ideias foram apresentadas de forma contraditória, podendo ser interpretadas de forma "perigosa". O maior problema, para o diário, é que a visão das assinantes vai de encontro a todo o trabalho feito até hoje para que as vítimas de assédio sexual e estupro compreendam que elas não são culpadas pelas agressões que sofrem.

Para o movimento feminista francês, o manifesto é conivente com as violências contra as mulheres ao defender "a liberdade dos homens de importunar".

A secretária de Estado para a Igualdade entre Mulheres e Homens, Marlène Schiappa, considera esse discurso “perigoso”. Já a ex-ministra dos Direitos das Mulheres Laurence Rossignol declarou que a tribuna assinada por Deneuve e outras autoras representa “um tapa na cara de todas as mulheres que denunciam os predadores sexuais”.