rfi

Ouvindo
  • RFI Brasil
  • Último jornal
  • RFI em francês

França Justiça Adolescente Escravidão África

Publicado em • Modificado em

França: caso de adolescente escravizada vai à Justiça

media
O processo acontece no Tribunal de Nanterres, periferia de Paris JACK GUEZ / AFP

Leila* tinha 13 anos quando chegou na França, há quase duas décadas. Seu pai, de uma família pobre no Mali, aceitou que um conhecido a trouxesse para o país em troca de uma vida melhor. Em vez disso, a adolescente foi escravizada durante cinco anos. O processo contra seus algozes começa nesta segunda-feira (22) no Tribunal Correcional de Nanterre, na região parisiense.


Quando Leila*, hoje com 32 anos, deixou o Mali, os amigos de sua família prometeram que ela iria para a escola, conta sua advogada, Juliette Vogel. Mas a adolescente nunca entrou em uma sala de aula. Em vez disso, ela se tornou a empregada da casa dos acusados, que moravam em um apartamento em Châtenay-Malabry, perto de Paris.

De acordo com sua advogada, entre 2000 e 2005, ou seja, entre 13 e 18 anos, a jovem trabalhava 18 horas por dia, sem salário. Seus documentos também foram confiscados pela família que a “adotou”. “Ela limpava toda a casa, onde moravam nove pessoas, e só saía para buscar as crianças na escola ou fazer compras. Dormia em um colchão no chão e era vítima de violência física e psicológica”, contou a advogada, em entrevista ao jornal francês 20 Minutes.

O drama de Leila* foi notado pela vizinhança, que, por duas vezes, avisou a polícia, em vão. A menina conseguiu fugir do apartamento onde era escravizada apenas em 2006, e pediu ajuda à ONG CCEM (Comitê contra a Escravidão Moderna), que prestou uma queixa no dia 25 de outubro do mesmo ano contra as pessoas que trouxeram a menina do Mali.

Dados mundiais infogram.com

Elas são acusadas de submeter a menina a condições indignas de trabalho e de moradia, sem remuneração, de trazê-la ilegalmente para a França, de exploração de menores e de trabalho dissimulado. Foi o início de um processo na Justiça que já dura 12 anos. A advogada lamenta a longa batalha judicial. “Muitas vezes é a palavra de um contra a palavra de outro. Mas para lidar com questões como essa, os juízes deveriam ser mais preparados. Eles têm dificuldade em aceitar que esse tipo de coisa possa existir aqui, na França”, declara.

Maioria de vítimas na França vêm da África

Em junho de 2017, um estudo feito pelo Observatório Nacional da Delinquência, na França mostrou que 52% das vítimas de escravidão são originárias do oeste da África. Das 185 vítimas que participaram do estudo, 96% são mulheres e dois terços eram maiores de idade. A maior parte das vítimas, cerca de 60%, conhece seus exploradores.

* O nome foi trocado a pedido da vítima