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Viagem de Macron à Córsega relança debate sobre independência da ilha francesa

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Emmanuel Macron durante o primeiro dia de sua visita à Córsega. REUTERS/Kamil Zihnioglu

O presidente francês Emmanuel Macron iniciou nesta terça-feira (6) sua primeira visita oficial à Córsega. O chefe de Estado desembarcou na ilha, que faz parte da França, em um momento de tensão, em meio a protestos e diante de uma assembleia local controlada por nacionalistas. O debate sobre a independência voltou à tona.


A visita de Macron começou com uma homenagem ao secretário de Segurança Pública da Córsega, Claude Erignac, assassinado por um independentista há 20 anos. Em seu discurso durante a cerimônia, o presidente martelou que “esse crime não se justifica e não se explica”, fechando assim a porta para uma das principais reivindicações das lideranças locais: a anistia de prisioneiros separatistas. Tanto o presidente do Conselho Executivo – uma espécie de Câmara dos vereadores local –, Gilles Simeoni, que defendeu inúmeras vezes o assassino de Erignac, quanto os três deputados nacionalistas presentes, não aplaudiram a fala de Macron.

A “alfinetada protocolar” ilustra o momento delicado vivido atualmente pela Córsega, que faz parte do território francês, mas sempre reivindicou sua independência. O discurso de Macron, aliás, acontece três dias após uma manifestação de nacionalistas que reuniu mais de 20 mil pessoas nas ruas de Ajaccio.

Mais de 4 mil atentados nacionalistas

Com seus 330 mil habitantes, a ilha, situada entre o Sul da França e a Sardenha, na Itália, foi durante décadas palco de mais de 4 mil atentados, a maioria deles reivindicados pela Frente de Liberação Nacional da Córsega (FLNC, na sigla em francês). O grupo radical clandestino afirma ter entregue as armas em 2014, mas a tensão persiste, desta vez no plano político. Prova disso, os nacionalistas conquistaram, em dezembro passado, a maioria absoluta nas eleições territoriais.

Os atuais dirigentes locais atuais não pedem uma independência total da ilha, e sim um “status de autonomia”. Eles reivindicam uma situação social e fiscal específicas, assumindo que se desligar da França não seria um bom negócio, principalmente do ponto de vista econômico.

Apesar de receber milhares de turistas todos os anos, em busca das paisagens que deram à Córsega o nome de “Ilha da Beleza”, a região ainda é muito dependente da França. Mesmo se registrou um dos melhores índices de crescimento do país nos últimos dez anos – perdendo apenas para a Ile-de-France, região da capital Paris – a Córsega ainda fica em 16° lugar em termos de Produto Interno Bruto (€ 8,62 bilhões em 2015). Os moradores representam um PIB de € 26 mil euros per capita, algo bem distante dos quase € 40 mil da média nacional.

Mas a questão cultural ainda pesa. A tal ponto que os nacionalistas sempre colocam na lista das reivindicações o reconhecimento da língua local como parte dos idiomas oficiais junto com o francês. Até hoje, nas estradas da Córsega, é possível ver placas nas quais as inscrições em francês são pichadas para deixar aparente apenas o nome das cidades na língua local, uma espécie de dialeto com sonoridades próximas do italiano. Mas o ponto mais delicado continua sendo o pedido de anistia dos 11 prisioneiros corsos detidos nas prisões do continente.

Macron foi diplomata, mas firme no primeiro dia da visita. O chefe de Estado disse que é necessário pensar no futuro da Córsega “no seio da República”. Um malabarismo semântico que exclui qualquer tipo de reconhecimento de uma especificidade da ilha na Constituição francesa.