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Pesquisadores franceses descobrem proteína que pode frear infecção da dengue

Por Taíssa Stivanin

O fracasso parcial da vacina contra a dengue desenvolvida pelo laboratório Sanofi, a Dengvaxia, que protege contra três cepas do vírus mas pode piorar a doença em pessoa s que nunca foram infectadas, está levando os cientistas a desenvolverem novas alternativas de tratamento antivirais.

A equipe do pesquisador francês Ali Amara, do laboratório Patologia e Virologia Molecular, do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica), acaba de identificar pela primeira vez os fatores celulares que interagem com o vírus da dengue durante a sua replicação. Todos os anos, mais de 50 milhões de novos casos são registrados no mundo.

A descoberta dessas moléculas gera pistas para o advento de novas terapias antivirais contra a dengue e o zika, que podem ser severas em alguns casos e fatais para crianças. A pesquisa foi publicada na revista especializada Cell Reports.

“Acredito que a maior parte da comunidade científica está convencida de que essa não é a vacina ideal, como é a vacina contra a Febre Amarela, por exemplo. Todos os estudos indicam que é preciso entender como o vírus funciona e se multiplica, e quais são as estratégias que ele utiliza para encontrar novas armas conta o vírus”, diz o pesquisador francês Ali Amara.

A equipe do cientista Amara buscou entender como o vírus funcionava e se multiplicava e distribuía seu genoma dentro da célula. Essa função foi batizada de complexo de replicação. “Conseguimos purificar esse complexo no laboratório e analisamos a composição dos fatores da célula envolvidos no processo”, explica o cientista. Isso possibilitou aos pesquisadores a obtenção de um mapa de interações entre o vírus e a célula, que identifica quais de suas funções são usadas para a replicação no ciclo da infecção.

Marcador da dengue grave

Os pesquisadores analisaram o papel das 270 proteínas essenciais para a multiplicação do vírus, mas que também freavam o avanço no vírus na célula. “Depois que descobrimos essas duas categorias de moléculas que compunham o complexo de replicação, nos perguntamos se essas interações com as células poderiam ser modificadas pela ação de pequenas moléculas antivirais, de potencial terapêutico”, afirma.

Para isso, a equipe se concentrou em um complexo batizado de OST, que transfere a chamada glicolisação às proteínas celulares. A glicolisação é uma reação química na qual um carboidrato é adicionado a outra molécula. “Percebemos que o vírus utiliza esse complexo para fazer essa glicolisação em suas próprias proteínas virais e que isso era primordial para a infecção”, explica Amara. Em resumo, o vírus se apropria das funções primordiais da célula para se multiplicar e a equipe identificou a proteína essencial para o processo.

Essa molécula tem a capacidade de bloquear a replicação do vírus, a produção de partes virais infecciosas na célula afetada, mas também a secreção de uma proteína importante do vírus, chamada NS1, uma virotoxina utilizada como um marcador das formas mais graves da dengue.

Aquecimento global trouxe dengue para a Europa

Os pesquisadores franceses também descobriram que o vírus utiliza mais de 250 proteínas celulares para se espalhar pelo organismo, que poderão no futuro ser usadas em tratamentos antivirais. Um exemplo é o inibidor NG1, que bloqueia as armas utilizadas pela dengue para se multiplicar no corpo, e que poderá ser usado para bloquear o avanço da doença.

“O futuro de tudo isso será provar que, injetando a molécula de NG1 em pequenos animais, infectados pelo vírus da dengue, poderemos desacelerar o processo de infecção da doença”, diz Amara. Outro desafio é achar outras proteínas que podem ser úteis na profilaxia e tratamento.

Vacina eficaz levará tempo

O cientista também lembra que a descoberta de uma vacina verdadeiramente eficaz pode levar tempo. “A dengue é complicada. Há décadas estudos mostram que para a dengue não podemos fabricar uma vacina como contra a Febre Amarela, por exemplo, que é um vírus parecido. Isso porque ele circula em quatro formas diferentes. É preciso fazer uma vacina tetravalente, que atinja essas cepas de maneira eficaz”.

Segundo ele, a vacina da Sanofis é um passo importante na luta contra a doença, mas é preciso imunizar os pacientes contra os quatro sorotipos que provocam a doença, transmitida pelo mosquito Aedes Aegypti e que, com o aquecimento global, deixou os países tropicais e está nas portas da Europa. Casos já foram identificados em Nîmes, no sul da França.

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