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Falta de vacinação provocou epidemia de sarampo na França, diz infectologista

Por RFI

O sarampo é uma doença provocada pelo Morbilivirus, um vírus altamente contagioso, transmitido pelas vias respiratórias. Contra ele, existe a vacina chamada tríplice viral, que também protege também contra a caxumba. A falta de adesão à imunização, eficaz e com poucos riscos, é a causa de uma epidemia de sarampo na França, que registrou 387 casos e a morte de uma jovem de 32 anos, em apenas três meses.

A vacina contra o sarampo tornou-se obrigatória para as crianças francesas em janeiro de 2018. Antes, ela era apenas recomendada. Segundo o infectologista François Bricaire, do hospital Pitié Salpetrière, a baixa cobertura vacinal é um dos fatores que contribuiu para a aparição de surtos da doença, que mesmo sendo benigna, pode trazer complicações. Neste contexto, é provável que ocorram outros surtos, explica.

“Como a população francesa não é suficientemente vacinada, não dá pra prever se a epidemia vai deixar de avançar. É uma doença altamente contagiosa, então o risco de haver novos casos aparecendo existe", diz Bricaire, que diz discordar de qualquer tipo de resistência em relação à vacina. “É uma vacina muito boa, eficaz e bem tolerada. Protege contra a caxumba e a rubéola também, o que é um grande benefício”, completa.

Teoria do complô

De acordo com ele, para evitar a propagação do sarampo, seria necessário que entre 90 e 95% da população francesa se vacinasse contra a doença. Mas a cobertura vacinal, em algumas regiões do país, não ultrapassa os 70%. Para o infectologista, os movimentos contrários às vacinas fomentam a desinformação.

“Há uma espécie de efeito de contestação da Ciência que circula nas redes sociais e na Internet e que aumentou consideravelmente. Há também um certo número de associações que pensam que as vacinas não são seguras, contêm aditivos e existe um risco, e que consideram que a indústria farmacêutica só quer ganhar dinheiro", observa.  "Essas ideias levam as pessoas a se interrogarem. Muitos pais que hesitam em vacinar os filhos se perguntam se devem ouvir os médicos ou as pessoas que falam sobre os possíveis riscos de uma vacinação.”

Mesmo defendendo a vacinação, o especialista reconhece que o sarampo, na maior parte dos casos, é uma doença benigna, mas lembra que ele traz riscos para pessoas mais frágeis. “Num país como a França, que tem os meios para proteger sua população, é inaceitável ver pessoas morrendo de sarampo em 2018”, diz. Entre 5% e 20% dos doentes podem ter sintomas graves, como encefalites, por exemplo.

Segundo Bricaire, o problema é que, quando as pessoas saudáveis optam por não se inmunizarem, estimulam a propagação do vírus e colocam em risco pessoas idosas ou com outros problemas de saúde, que não podem tomar a vacina. Isso porque a triplíce viral utiliza os chamados vírus vivos. Esses microrganismos, atenuados em laboratório, ativam o sistema imunológico e a produção de anticorpos em pacientes saudáveis, mas podem provocar reações severas em pacientes imunodeprimidos.

“Crianças mimadas”

O fato de uma epidemia de sarampo atingir um país desenvolvido como a França não surpreende o infectologista francês. “Costumo dizer que essa reação das pessoas que são contrárias à vacinação é uma reação de criança mimada. Temos tantos recursos que podemos nos dar ao luxo de protestar, pensar que poderia ser melhor, ou diferente, enquanto em alguns países, as pessoas ficam felizes de poderem se vacinar. Os países africanos ficam felizes quando organizamos uma campanha de vacinação”, exemplifica.

Para ele, o fato da vacina ter se tornado obrigatória no país em janeiro pode ter um efeito positivo, mas é difícil prever a adesão. “Muitas pessoas protestam contra a obrigatoriedade de 11 vacinas. As pessoas se questionam do porquê dessa obrigação, falam de desrespeito à liberdade individual, reclamam que não têm direito de fazer o que querem…Discordo dessa atitude. Temos obrigações, como cidadãos. O Estado nos propõe a vacinação porque é uma questão importante de saúde pública. Contestá-la é lamentável. Não tenho certeza que essa obrigação vai de fato melhorar a situação”.

Ele explica que o sarampo, assim como o tétano, a difteria ou poliomielite, nunca foram erradicados, e a falta de vacinação pode gerar surtos de doenças que a população imaginava que não existiam mais. “São infecções controladas pelas vacinas, e por isso as pessoas pensam que esses vírus desapareceram e que por isso não é mais necessário se imunizar. É mentira. Esses germes continuam presentes na natureza, e se a taxa de vacinação cai, eles reaparecem e provocam doenças”.

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