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Prémio Cannes César cinema francês Cannes 2018

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Com atraso, cinema francês entra na luta contra agressões sexuais e pela paridade de gênero

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O prêmio César, desenhado pelo artista César. DR

O cinema francês é sexista. As evidências são cabais. A cada quatro filmes produzidos, apenas um é dirigido por uma mulher. Em 71 anos de Festival de Cannes, somente uma mulher ganhou o prêmio de melhor direção, mas dividido com um homem. E na noite de entregas do prêmio César, que acontece nesta sexta-feira (2), apenas uma mulher concorre na categoria de melhor direção, ao lado de sete homens.


Cinco meses depois do escândalo Weinstein, que balançou a indústria cinematográfica mundial, a França tenta recuperar o atraso. O cinema francês é acusado de não ter sido muito reativo à onda de denúncias pelo mundo todo. Poucas atrizes francesas admitiram agressões, e quando o fizeram, citaram o nome de Weinstein.

Indo na contracorrente, um grupo de atrizes e personalidades femininas, como a atriz Catherine Deneuve e a escritora Catherine Millet, assinaram uma tribuna criticando a onda de delações e reivindicando “o direito de importunar, indispensável à liberdade sexual”.

Durante esta semana, duas iniciativas importantes foram anunciadas. A primeira foi a campanha #MaintenantOnAgit (Agora vamos agir), que nos moldes da americana Time’s Up, faz apelo por fundos para ajudar vítimas de assédio. A ação, com participação de atrizes como Vanessa Paradis, Julie Gayet e Chiara Mastroianni, tem parceria da Fondation des Femmes (Fundação de Mulheres), que reúne um grande número de associações de ajuda a vítimas de violência. As participantes pedem que os convidados à festa do César usem uma fita branca.

“Usar a fita branca será para nós, francesas e franceses, a maneira de exprimir nossa solidariedade”, diz Julie Gayet, que produziu “Grave”. O filme é dirigido por Julia Ducournau, única mulher ao lado de outros sete homens.

Predominância masculina

Paralelamente, um coletivo de profissionais da sétima arte pede, através de uma carta aberta publicada pelo jornal Le Monde desta sexta-feira, um sistema de cotas da produção cinematográfica para contrabalancear a predominância masculina. Apenas um quarto dos filmes produzidos na França com aval do Centro Nacional do Cinema e da Imagem Animada (CNC) é dirigido por mulheres.

Outra evidência indiscutível da falta de equilíbrio entre gêneros na França é que em 71 anos de festivais de Cannes, apenas uma mulher ganhou a Palma de Ouro de direção, a australiana Jane Campion, em 1993, por “O Piano”. Ou melhor, foi uma meia Palma, dividida com o chinês Chen Kaige, de “Adeus, minha concubina”.

Mas no ano passado, um protesto feminista marcou a entrega dos prêmios. O franco-polonês Roman Polanski seria o presidente da cerimônia, mas teve sua participação cancelada diante de protestos e ameaça de boicotes. Polanski é acusado de ter estuprado uma garota de 13 anos, em 1977, nos Estados Unidos, e tem sido alvo de várias acusações de assédio recentemente.

Os destaques da noite

Entre os filmes indicados para o prêmio principal, o favorito é “120 batidas por minutos”, de Robin Campillo, que já levou o Grand Prix no último festival de Cannes. O longa, que tem 13 indicações no total, traz no papel principal o argentino Nahuel Perez Biscayart, numa interpretação visceral sobre os primeiros anos da luta contra a Aids na França. O jovem ator deve levar o prêmio de talento promissor.

A atriz espanhola Penélope Cruz vai ser a grande homenageada da edição deste ano, com um prêmio por sua carreira.