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Margiela, o “estilista invisível”, é tema de duas exposições em Paris

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Casacos feitos com perucas fazem parte das peças realizadas por Martin Margiela, en 2009 © RFI / Silvano Mendes

O mundo da moda celebra o talento do belga Martin Margiela, um dos nomes mais influentes de sua geração, mas também um dos mais enigmáticos. O estilista, que não aparece em público e não dá nenhuma entrevista, é tema de duas exposições em Paris.


O Palácio Galliera, um dos dois museus da moda de Paris, inaugura neste sábado (3) a primeira retrospectiva dedicada ao trabalho de Margiela na França. A mostra, que retraça a trajetória do costureiro entre 1989 e 2009, apresenta 130 looks, vídeos, documentos e instalações que resumem a dimensão conceitual do estilista.

Inspirado por Jean Paul Gaultier, de quem foi assistente, mas principalmente pelos japoneses Rei Kawakubo e Yohji Yamamoto, Margiela questionou os limites da moda no final dos anos 1980, até então ainda marcados pelo classicismo herdado da alta-costura. Mostrando o avesso das roupas, alterando as proporções com peças oversize, ou abordando a questão da reciclagem, o belga levou para as passarelas temas raramente explorados.

Mas Margiela representa também um mito, o do estilista “invisível”, que prefere dar espaço à sua criação e não à sua própria imagem. Uma postura sentida também nas passarelas, com vários desfiles nos quais as modelos têm seus rostos cobertos, para que o público se concentre principalmente nas roupas – que são reconhecidas nas lojas apenas por quatro pontos de costura branca nas costas dos casacos e camisas ou no cós das calças.  

Estilista deixou sua marca no auge

Porém, essa vontade de “se apagar” parece ser muito mais um aspecto de sua personalidade que uma estratégia de marketing. Prova disso, em 2009 o estilista deixou sua marca sem avisar ninguém. Mas a grife não deixou de existir, e hoje tem seu estilo dirigido pelo britânico John Galliano.

Outro aspecto explorado por Margiela é a maneira de apresentar suas coleções. Além das modelos com rostos cobertos, ele sempre tentou encontrar locais inusitados, como em 1989, quando desfilou em um terreno baldio em um bairro popular de Paris. “Ele adora surpreender, mas isso nem sempre é uma provocação”, explica Alexandre Samson, curador da exposição no Galliera, lembrando que “esse o desfile foi criticado por muitos, mas também foi o que o tornou conhecido internacionalmente”.

Vanguarda na Hermès

Mas por trás dessas performances, se esconde um profissional apegado à dimensão técnica da moda. E foi esse aspecto que atraiu a maison Hermès, que contratou Margiela como diretor artístico entre 1997 e 2003. Essa passagem pela marca de luxo é tema de uma outra exposição, que abre suas portas no dia 22 de março no Museu das Artes Decorativas de Paris. A mostra, que já passou pelo MoMu da Antuérpia, traz 120 looks, além de fotos e vídeos que ilustram a maneira como o estilista conseguiu dialogar entre os dois universos.

O ponto em comum entre essas duas exposições é a participação do próprio Margiela em todo o processo. “Ele aceitou ser o diretor artístico dessa retrospectiva”, relata, com orgulho, Alexandre Samson. “Era muito importante para ele fazer um balanço sobre seu percurso. Afinal, ele fez uma moda que influencia muito do que vemos nos desfiles nos últimos cinco ou seis anos”, lembra o curador. Aliás, o que não faltam são herdeiros do belga, começando pelo georgiano Demna Gvasalia, que passou pelos estúdios Margiela e dirige atualmente o estilo da Balenciaga e de sua própria marca, Vetêments.