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Paris: Fim do tráfego nas marginais do Sena tem impacto limitado na poluição

Por Lúcia Müzell

O fechamento das marginais do rio Sena, que cruza Paris de leste a oeste, é a medida mais emblemática da prefeita socialista, Anne Hidalgo, em um amplo projeto contra a poluição e para “devolver” a cidade aos cidadãos. Mas a decisão gera um embate com a justiça e o governo regional de Ile de France, que questionam a eficácia da deliberação.

Desde 2016, os carros deram lugar aos pedestres, ciclistas e esportistas em um dos cartões postais mais belos da capital francesa, as margens do Sena. As pistas foram tomadas por bares, atividades recreativas, jardins e até obras de arte, para estimular os parisienses a ocupar um espaço onde, até então, funcionava uma verdadeira autoestrada em plena cidade.

Mas, por enquanto, os resultados práticos da medida na redução da poluição atmosférica são contestados. Os estudos mais imparciais sobre o tema foram realizados pela AirParif, organismo ligado ao Ministério do Meio Ambiente da França e especializado no monitoramento da qualidade do ar na região parisiense. As conclusões foram divulgadas em 2017.

“É um resultado contraditório. Tivemos uma clara melhora dos índices de poluição nas avenidas junto ao Sena – tanto as superiores quanto as inferiores. Porém, em alguns cruzamentos nas avenidas superiores, houve aumento dos congestionamentos e das emissões de poluentes, assim como nas vias do leste de Paris”, explica a engenheira Charlotte Singer, que participou do estudo. “Não constatamos um impacto significativo no aumento ou na redução da poluição, durante o período que fizemos as medições, em 2016. Precisaremos ver, com o tempo, se haverá um impacto mais perene no tráfego.”

Engarrafamentos no cais de Tuileries, na margem direita do rio Sena, são constantes. 13/10/16 FRANCOIS GUILLOT / AFP

Melhorias para uns, piora para outros

Em resumo: nas marginais bloqueadas aos carros, a melhora da qualidade do ar foi 25%, mas a poluição e os engarrafamentos se deslocaram para outras partes da cidade, onde a situação piorou até 10%.

O assunto levanta uma grande polêmica em Paris – os ciclistas e pedestres estão cada vez mais satisfeitos, mas os usuários de carros afirmam que ficou insuportável circular na cidade. Aqueles que precisam do veículo para o trabalho garantem não ter outra alternativa a não ser o automóvel.

A questão também se tornou um embate político: o governo regional de Ile de France, comandado pelos conservadores do Os Republicanos, alega que a prefeitura de Paris está empurrando o problema para a periferia da cidade.

O pesquisador do Centro Nacional de Pesquisas Cientificas (CNRS) Jean-Baptiste Renard, especializado em poluição atmosférica na Universidade de Orléans, afirma que não há solução definitiva a não ser repensar o assunto com um olhar regional.

“Há muitos exemplos em várias grandes cidades do mundo que mostraram que, quando diminuímos o tráfego de maneira realmente significativa, em um bairro ou uma zona inteira – e não apenas em algumas ruas –, há uma forte redução das partículas finas e dos gases poluentes”, indica o pesquisador. “Está provado que a redução do tráfego tem um efeito direto na melhora da qualidade do ar. Mas é preciso ter uma visão do conjunto. Não adianta bloquear a circulação numa rua e transferir o tráfego para as ruas do lado.”

Medidas impopulares

Singer destaca que, graças aos motores mais modernos e medidas como a redução dos limites de velocidade máxima em Ile de France, a poluição diminui há 10 anos na região parisiense. O tráfego e os sistemas antigos de calefação dos imóveis são as duas maiores causas de emissões de partículas finas e óxido de azoto, os mais nocivos para a saúde.

A diretora do departamento de modelização ambiental e decisões do Instituto Nacional e Ambiente Industrial e Riscos (Ineris), Laurence Rouil, reitera que a queda do tráfego é uma parte essencial de qualquer plano de diminuição da poluição urbana.

“Acho que há uma tomada de consciência da população de que a poluição atmosférica é um dos principais desafios sanitários na Europa. Aos poucos, os cidadãos estão aceitando melhor certas medidas para reduzir as emissões, por mais que elas impactem no seu dia a dia”, pondera. “É por isso que é preciso implementar políticas de mobilidade urbana ambiciosas, com um transporte público eficiente, incentivos à mobilidade desmotorizada ou iniciativas como carona.”

Grand Paris: a revolução nos transportes que está por vir

Para estimular mais motoristas a preferir os transportes públicos, Renard observa que seria necessária uma profunda transformação na eficácia dos transportes que levam de Paris à região periférica, assim como dentro da própria capital. Embora disponha de uma das mais vastas redes de metrô e ônibus do mundo, apenas uma minoria de estações possui elevadores e escadas rolantes.

“O fechamento das avenidas do Sena teve mais um efeito psicológico, mas não diminuiu a poluição. O que seria significativo é o fim do diesel dentro de Paris, que traria resultados muito rápidos na qualidade do ar, e uma política de transportes em toda a região parisiense que incite bem mais as pessoas a usar os transportes públicos – ou pelo menos que as estimule a evitar o carro no centro de Paris”, comenta o especialista.

O mega projeto Grand Paris, que vai integrar a capital à sua região metropolitana, prevê a abertura de uma rede de 200 quilômetros de metrô, com 75 estações, até 2025. O projeto promete melhorias no sistema metropolitano já existente, em especial nas diferentes linhas de RER, que atendem os arredores de Paris. O custo é estimado em € 32,5 bilhões (R$ 130 bilhões).

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