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Tragédia no Mediterrâneo é tema de peça de Christiane Jatahy em Paris

Por Patricia Moribe

Durante anos, o herói grego Ulisses, depois de anos de guerras, tenta voltar para casa, Ítaca, através das águas revoltas e traiçoeiras do mar Mediterrâneo. Nos dias de hoje, milhares de refugiados vem deixando suas casas e tentam atravessar esse mesmo mar, em busca de um novo lar.

A diretora teatral brasileira Christiane Jatahy se inspirou na “Odisseia”, de Ulisses, para montar sua quinta peça na França, “Ítaca”, ou melhor, “Ithaque”, em francês agora no prestigiado Théâtre de l’Odéon – Ateliers Berthier. Antes, ela trouxe “Júlia”, baseada em “Senhorita Júlia”, de Strindberg, e “E se elas fossem a Moscou?”, inspirada em “As Três Irmãs”, de Tchekov. Na sequência, ela criou “A floresta que anda”, a partir de “Macbeth”, de Shakespeare, e, para o tradicional teatro da Comédie Française, ela fez uma releitura para o palco do filme “A Regra do Jogo”, de Jean Renoir.

“Há algum tempo que eu me interesso e trabalho com os textos clássicos”, diz Christiane, em entrevista exclusiva à RFI. “Para mim eles representam a nossa memória. E quando trabalho com um texto dito ‘clássico’, sempre penso de que forma isso também está dentro da memória e da construção que o espectador vai fazer”, acrescenta. “Também penso de que forma esse texto tem sentido hoje, não sendo apenas uma atualização, mas como, através desse trabalho, falar de uma forma contundente sobre os dias de hoje”.

 “Eu queria falar sobre a guerra, não só sobre destruição, mas sobre este estado em que vivemos hoje, de uma guerra de muitas faces”, relata a diretora. “Impossível não pensar em ‘Odisseia’ com todos esses movimentos de travessias que o mundo está vivendo, guerras econômicas, não só as de lutas. A primeira imagem que me veio com o projeto foram as das pessoas em busca de suas Ítacas, atravessando o Mediterrâneo”.

Para Christiane Jatahy, a peça também reflete o estado atual de outra casa, a sua própria, o Brasil. “São tempos de sombras e de horror que a gente tem vivido, desde o golpe que derrubou a presidenta Dilma Rousseff, um golpe na democracia”, diz. Ela faz um paralelo com os pretendentes ao reino de Ulisses, “uma espécie de ratos que devoram continuamente Ítaca, suas riquezas, belezas, e a esperança – é a imagem do que se passa no Brasil”.

Ítaca também trabalha com a barreira da língua, misturando o português e o francês, com três atrizes brasileiras e três atores de língua francesa – um francês, um suíço e um belga. As atrizes são as mesmas de “E se elas fossem a Moscou?” – Julia Bernat, Stella Rabello e Isabel Teixeira. Na peça de Jatahy, a língua também é um instrumento, um objeto de entendimento ou não.

Outra característica recorrente do trabalho da brasileira é o uso do cinema em suas peças. “É importante como meio, para criar duplicidade e jogo de tensão com o teatro”. Ela explica que as imagens de vídeo sempre entram de forma diferente, mas intrinsicamente ligadas à necessidade dramatúrgica. “A câmera é ao mesmo tempo arma, mas também possibilidade de denúncia, de defesa”, explica.

"Ithaque" fica em cartaz em Paris até 21 de abril no Théatre Odéon – Ateliers Berthier.

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