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França Maio de 68 Manifestação Greve

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Clima de greves na França lembra Maio de 68, analisam jornais franceses

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Entrada de um anfiteatro que está bloqueado na Universidade de Nantes, enquanto os estudantes protestam contra a reforma da universidade, em Nantes, França, em 5 de abril de 2018. REUTERS/Stephane Mahe

Várias greves espalhadas pelo país, diversos grupos com reivindicações específicas, estudantes bloqueando as entradas das universidades: o clima na França tem se aproximado cada vez mais da atmosfera de Maio de 1968. É o que dizem diversos veículos de comunicação franceses – vendo na semelhança das duas situações seus pontos positivos e negativos.


“Abril de 2018, Maio de 1968, mesma luta?”, questiona o jornal Le Parisien, ao exibir uma foto de jovens carregando uma faixa com a mensagem: “1968: Você quer realmente lutar? 2018: Lembre-se de 50 anos atrás”. Em algumas semanas a França comemora o cinquentenário das famosas manifestações da década de 60, evento histórico cujo simbolismo no país ainda é motivo de briga.

Para os estudantes de hoje, o conflito é causado pela lei de Emmanuel Macron que tem como objetivo mudar a seleção para ingressar nas universidades públicas francesas, julgada pelos manifestantes como injusta. Para eles, o projeto de Macron só vai aumentar as já existentes desigualdades sociais da França.

“Fechado para a administração, aberto para os estudantes” ou “Nada a dizer, tudo a fazer” são alguns dos slogans escritos nos muros das universidades bloqueadas. A comunicação rápida e irreverente, que busca desconstruir valores e hierarquias, é uma das heranças de Maio de 68 para o Le Parisien. “Bata rápido, bata forte, ‘polícia’ bom é ‘polícia’ morto”, diz outro, mais agressivo, que causou furor nas redes sociais.

“Obrigatoriamente, o chefe de Estado Emmanuel Macron não escapa aos slogans. Enquanto o general de Gaulle, em 1968, tinha direito a ‘A confusão, é ele mesmo!’, o atual presidente deve ler ‘Alô Jupiter, aqui quem fala é a Terra’, numa alusão à sua maneira ‘jupteriana’ de governar”, diz o diário.

Mau exemplo

Já o jornal Le Figaro, mais conservador, apresenta uma visão menos romântica das atuais manifestações que cobrem a França. Em um editorial intitulado “Estudantes bizarros...”, a publicação chama a atenção para o caráter extremista de certos manifestantes. “Roubos, degradação, cuspes, espancamentos, ameaças de morte, xingamentos antissemitas: essa é a realidade dos presidentes de universidade e dos estudantes não-grevistas”, escreve a jornalista Laurence de Charette.

Em outro artigo, o Le Figaro confronta os manifestantes com suas próprias contradições: faltando algumas semanas para as provas de fim de semestre, eles exigem receber uma “nota média” no lugar de fazer o exame, para que a greve possa continuar. “Mesmo em maio de 1968 foi possível realizar os testes de fim de semestre” é o título da matéria, que conta com o relato de uma testemunha.

“Os estudantes de Direito, que quiseram fazer as provas, que aconteceriam em maio, não agradaram os estudantes de letras, que decidiram invadir a faculdade”, diz Jean-Yves Naudet, hoje professor emérito da universidade de Aix-Marseille. Segundo ele, os manifestantes tentaram atrapalhar a execução dos exames utilizando megafones ou música alta. “Trago ainda na memória o tango que eles tocaram”.

Espírito de 68

“Na universidade Paris-Nanterre, não é preciso procurar por muito tempo para encontrar o espírito de 22 de março de 1968. Desde que saímos do metrô, podemos ver vários estudantes em direção ao anfiteatro para uma assembleia geral”, diz o jornal Humanité, que relata o discurso de Carla, de 19 anos, estudante de História.

“Faz seis meses que lutamos contra o projeto de lei de Macron. Agora, as pessoas estão começando a acordar, a perceber que ele vai instaurar a seleção no ingresso à universidade. Amanhã faremos greve”, declara.

Em 1968, lembra o Humanité, a universidade de Nanterre tinha uma situação demográfica parecida com a de hoje: estudantes demais, espaços de menos. Na época, o governo de Gaulle tentou aprovar a “reforma Fouchet”, que instauraria, não por acaso, uma seleção. “Para mim, o espírito do 22 de maço de 68 somos nós, porque continuamos a lutar e não os dirigentes da faculdade que querem comemorar os 50 anos ao mesmo tempo em que tentam instaurar o ingresso por seleção”, reflete Carla.