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Coreógrafa francesa Maguy Marin prepara bailarinos da Escola da Maré para espetáculos na França

Por Patricia Moribe

“Um ato de generosidade de Maguy Marin”, define a coreografa brasileira Lia Rodrigues a respeito do projeto De Sainte-Foy-lès-Lyon, May B à la Maré, une fraternité, um título muito comprido que pode ser explicado assim: a montagem de May B por alunos da Escola Livre de Dança da Maré.

Criado em 1981, o espetáculo May B, da coreógrafa francesa Maguy Marin, é considerado uma obra-prima, já parte da história da dança contemporânea. A peça volta agora a Paris, com dez jovens dançarinos de Lia Rodrigues.

Eles ensaiam numa sala do centro cultural 104, em Paris. Com Amália Lima, da companhia de Lia, os alunos fazem um longo aquecimento de corpo e de expressões. Em seguida, com a chegada da coreógrafa, são comentados os problemas da última apresentação, pequenos detalhes talvez imperceptíveis para o público.

Transmissão

Mas é muito mais que uma nova montagem. É um projeto de transmissão de experiência, de técnica, de sabedoria. Uma coreógrafa francesa que trabalha há muitos anos com Maguy Marin foi ao Rio de Janeiro para passar a coreografia para os dez alunos durante um mês. Depois foi a vez dos cariocas ficarem três semanas sob os auspícios de Maguy, em seu centro cultural nos arredores de Lyon, sudeste da França, antes das primeiras apresentações.

Para Maguy, a transmissão é uma forma de ‘armar’ os jovens bailarinos para uma vida futura no mundo da dança. “Trata-se de armá-los com técnica, bases rítmicas, musicais, espaciais, como lidar com os colegas, com os outros dançarinos”, explica. 

Beckett

O ponto de partida de May B, foi a obra do escritor e dramaturgo irlandês Samuel Beckett, célebre por seu teatro do absurdo, como Esperando Godot, e textos carregados de pessimismo e ironia diante da condição humana. Maguy Marin enviou o projeto à editora do prêmio Nobel de Literatura e ele quis conhecê-la.

“Conversamos em um café em Paris, eu expliquei o projeto e ele me incentivou, quis que eu fosse livre para fazer o que quisesse”, conta a artista francesa. “Foi um encontro magnífico”, acrescenta. “Na época ele estava trabalhando na Alemanha com teatro coreografado, ou seja, sem texto, e talvez por isso tenha ficado intrigado com o fato de eu ser coreógrafa”, explica.

Lia Rodrigues fazia parte da companhia de Maguy Marin na época. “May B me ajudou muito como bailarina, como intérprete e criadora, pois é uma peça completa, é teatral, muito musical, muito dançada. Foi como uma escola”, relata.

"Vivemos sob um golpe"

“Em 2016, Maguy me deu May B, de presente, para eu fazer com os meus bailarinos”, diz Lia. “Foi para ajudar a nossa escola, agora que no Brasil não tem nenhum dinheiro para as artes, em nenhuma instância – municipal, estadual ou federal. Vivemos sob um golpe, que se aplica a todas as áreas, principalmente a cultural”, explica.

De volta ao Brasil em 1983, Lia Rodrigues criou uma companhia no Rio de Janeiro, tocou um grande festival de dança por mais de dez anos e fundou a Escola Livre de Dança da Maré, para pessoas dos 8 aos 80 anos. Paralelamente, um grupo recebe aulas diárias mais intensivas junto com a companhia da coreógrafa, também baseada no Centro de Artes da Maré.

Marielle, Lula

Nas últimas semanas, a equipe de Lia Rodrigues foi literalmente atropelada por notícias vindas do Brasil, como a morte da vereadora Marielle Franco, bastante atuante no complexo da Maré, e a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“Eu era conhecido da Marielle, era a minha vereadora. Fiquei despedaçado quando soube do assassinato por conta de tudo o que ela representava. Atualmente, a dança me ajuda a fortalecer essa minha atitude política. Mas tem sido muito difícil para nós”, conta o dançarino Marlon Araújo, 21 anos.

May B fica em cartaz no 104, em Paris, até dia 14, e de 3 a 5 de abril os alunos de Lia Rodrigues se apresentam em Pontoise, no subúrbio de Paris.

Alunos de Lia Rodrigues ensaiam "May B", de Maguy Marin. @david Mambouch may b maré 8

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