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Após “bromance” com Trump, Macron volta para casa de mãos vazias

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Donald Trump retira caspa do ombro de Macron, que sorri: na prática, todo o afeto foi inútil, avalia imprensa e oposição francesas. REUTERS/Kevin Lamarque

A visita oficial do presidente francês, Emmanuel Macron, aos Estados Unidos não surtiu os efeitos que o francês esperava na posição de Donald Trump sobre três delicados dossiês internacionais: guerra na Síria e os acordos nuclear iraniano e sobre o clima. Nesta quinta-feira (26), analistas avaliam que o “bromance” (contração das palavras inglesas “brother” e “romance”) entre os dois presidentes não serviu para nada – e ainda colocou Macron em uma posição embaraçosa.


Foram três dias de abraços, sorrisos, troca de olhares e até beijos diante das câmeras. Mas ao retornar a Paris, o próprio presidente francês admite em meias-palavras que volta dos Estados Unidos de mãos vazias. Antes de embarcar rumo à capital francesa, ele conversou com jornalistas e demonstrou pessimismo: reconheceu que, por "razões domésticas", relacionadas com a sua base eleitoral, Donald Trump poderá "se livrar" do acordo negociado com o Irã e “rasgar” o documento no próximo dia 12 de maio. Essa é a data limite para Washington confirmar ou não o compromisso com o texto, assinado durante o governo de Barack Obama.

Macron sai perdedor ante o presidente americano em outros dois pontos centrais de sua visita: Trump reafirmou a intenção de retirar as tropas americanas da Síria assim que possível e desprezou, mais uma vez, o Acordo de Paris sobre o clima. “Acho que avançamos. Não acredito em transformações em uma única noite: acredito que elas acontecem profundamente com o tempo”, contemporizou o líder centrista.

Trunfo foi melhorar a “imagem da França”, alega Macron

À parte o sucesso no Congresso, onde foi ovacionado como "líder dos valores ocidentais", o francês perdeu ao apostar numa suposta amizade com o republicano e até serviu para reforçar a imagem de intransigência de Trump e dos Estados Unidos como primeira potência mundial. Em seu próprio balanço da visita, Macron sublinhou que “a imagem da França mudou”.

“O que vocês viram no Congresso é a França ouvida, respeitada e que traz uma mensagem. Isso não produz efeitos imediatos; a política externa não é um jogo mecânico. Mas isso uma cria uma relação de forças e constrói um respeito recíproco do qual nós precisamos, para continuar agindo”, explicou.

Emmanuel Macron e Donald Trump de mãos dadas na Casa Branca. REUTERS/Kevin Lamarque

Riscos de amizade com “brutamonte”

O balanço na imprensa francesa é menos entusiasmado. Em editorial, a revista Le Point assinala que Macron protagonizou “um romance diplomático sem precedentes”, na tentativa de “se impor na cena internacional como interlocutor privilegiado de seu homólogo americano”, o “imprevisível e angustiante” Trump. Porém, o texto lembra que os jornais dos Estados Unidos se concentraram muito mais em se divertir com as manifestações de afeição entre os dois homens do que no fundo as questões evocadas pelo francês durante a visita.

A emissora Europe 1 foi além: avalia que, “ao se deixar acariciar por um brutamonte, ele se expõe ao risco de, subitamente, levar uma bofetada – e a por que não ter uma orelha arrancada”. “O presidente americano só é fiel a si mesmo. Ele repudia suas esposas, seus conselheiros, seus amigos. No Congresso americano, Emmanuel Macron estava à mercê de um tweet vingador, mas o americano conseguiu se segurar”, ironiza o editorialista internacional Vincent Hervouet.

O analista destaca que, apesar das demonstrações de afeto com Macron, “Trump permaneceu imutável: coerente com seus discursos de campanha e com seu eleitorado, enquanto Macron tentou se adaptar, sob o risco de perder”. “Seus eleitores, que vomitam em Trump, perceberam que tentar influenciá-lo foi uma tentativa em vão”, resume Hervouet.

Oposição critica fracassos

A visita presidencial aos Estados Unidos não passou em branco pela oposição francesa. O líder do partido Os Republicanos, Laurent Wauquiez, declarou que “a diplomacia de Emmanuel Macron vai de fracasso em fracasso”, e criticou a ausência de resultados concretos durante a viagem. “Quando Macron partiu, o objetivo era que Trump respeitasse o acordo iraniano, e não que ele o renegociasse”, acusou Wauquiez. Na terça-feira, os dois presidentes pediram um novo acordo para conter as ambições nucleares do Irã, horas depois de o americano qualificar o texto atual como “um desastre”.

Entre os socialistas, o mesmo tom crítico. “A aposta inicial de charme e sedução de Macron em relação a Trump não o fez mudar nem um milímetro nos grandes temas”, apontou o ex-ministro Matthias Fekl, em entrevista à RFI. “Sobre o Irã, assistimos pura e simplesmente a um alinhamento da diplomacia francesa às demandas americanas – o que é muito grave”, insistiu Fekl, encarregado das relações internacionais no Partido Socialista.