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Um pulo em Paris
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Migrantes morrem afogados em canal de Paris e relançam debate sobre crise dos refugiados

Por Silvano Mendes

Dois migrantes morreram afogados esta semana em canais de Paris. As vítimas estavam morando em acampamentos ilegais armados no nordeste da capital francesa. Milhares de pessoas vivem no local desde fevereiro.

O primeiro caso aconteceu na noite de segunda-feira (7), quando um jovem afegão de cerca de 20 anos tentou atravessar a nado o canal Saint-Martin, no nordeste de Paris. A segunda ocorrência foi registrada na véspera, no canal Saint-Denis, na mesma região, mas fora da cidade. Desta vez, os moradores encontraram, boiando, o cadáver de um jovem, que seria originário da Somália.

Ambos os casos aconteceram próximos aos acampamentos que vêm se formando desde o início do ano na região. Segundo as estatísticas da prefeitura de Paris e das ONGs de ajuda humanitária que atuam no local, cerca de 3 mil pessoas estão acampadas atualmente no norte e nordeste da capital francesa. Vindos principalmente do Afeganistão, Somália e Eritreia, alguns dormem embaixo de pontes na marginal de circunda a capital, mas a maioria monta suas barracas às margens do canal Saint-Denis e do canal Saint-Martin. Esse último atravessa o leste da cidade e termina em uma marina ligada ao rio Sena, ao lado do monumento da Bastilha.

A morte dos dois rapazes relança o debate sobre o acolhimento aos migrantes que chegam na capital francesa. Como em 2016, quando um gigantesco acampamento foi desmantelado na mesma região de Paris, muitos desses moradores de rua estão à espera de um veredicto das autoridades sobre seus pedidos de documentos como refugiados de guerra. Os que obtém esse status são alojados e recebem uma ajuda do governo. Já os demais podem ser expulsos da França.

Jogo de empurra-empurra entre Estado e prefeitura

A situação desses migrantes é de responsabilidade do Estado – representado pelo Ministério do Interior -, mas a gestão das condições de vida na cidade cabe à prefeitura. A divisão gera um jogo de empurra-empurra entre os diferentes níveis do poder. Há algumas semanas, a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, tem ido, às sextas-feiras, visitar esses acampamentos. A cada vez, ela diz que o Estado tem que agir rapidamente e colocar os migrantes em algum tipo de abrigo.

“A situação do ponto de vista humanitário é inaceitável e não pode continuar”, alertou a prefeita. O ministro do interior, Gérard Collomb, respondeu esta semana que está fazendo o necessário, mas que “a ocupação do espaço público na cidade de Paris não é uma competência do Estado”. Segundo ele, “a prefeitura deve garantir a salubridade e a limpeza desse espaço”.

A prefeita já instalou no local equipamentos de saneamento básico, como torneiras com água potável e banheiros químicos. Além disso, ela já havia alertado para o fato de que os acampamentos estavam chegando cada vez mais perto das margens do canal, “gerando riscos significativos de afogamento”, como os que aconteceram nesta semana.

Moradores e turistas convivem com precariedade dos migrantes

No caso do canal Saint-Martin, o acampamento está situado em uma região que se tornou cada vez mais turística nos últimos anos. A gentrificação do bairro, com a abertura de bares e restaurantes, além da alta dos preços do mercado imobiliário, fizeram dessa antiga zona popular um local de passeio de parisienses e estrangeiros.

É na extensão do canal Saint-Martin, por exemplo, que a prefeitura instalou, há alguns anos, uma parte da operação Paris Plage, a praia artificial montada durante o verão. Também é nessa região que foi armada, no ano passado, uma piscina pública. A atração fica a cerca de 500 metros do acampamento onde o jovem afegão morreu afogado.

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