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Modelo de integração é de "indiferença às diferenças": romance de escritora franco-brasileira discute lugar da mulher mestiça entre Brasil e França

Por Márcia Bechara

O RFI Convida convida nesta segunda-feira (4) a escritora, editora e tradutora Paula Anacaona, que lança seu primeiro romance, "Tatou", dentro da coleção Urbana de sua própria editora, a Anacaona, especializada em literatura brasileira. Com humor e olhar crítico, Paula retraça o caminho de "Victoria", uma protagonista franco-brasileira, filha de pai negro e mãe branca, em guerra com sua identidade mestiça. 

O primeiro romance de Paula Anacaona, que é autora de dois livros infanto-juvenis, surgiu de uma vontade não-programada de escrever sobre alguns temas que a revoltavam. "Decidi escrever este romance de repente, onde usei muitas experiências pessoais, mas insisto em dizer que se trata de uma ficção. O tema principal é o lugar da mulher negra na sociedade francesa e brasileira", conta a autora.

"Sou muito fã, por exemplo, da Conceição Evaristo, que publiquei aqui na França, e, quando leio seus livros, às vezes me reconheço, e às vezes não. Então eu quis descrever uma mulher da classe alta, brasileira, que é também mestiça e francesa", diz Paula. Segundo ela, foi uma oportunidade para falar do Brasil e da França, além do lugar da mulher negra ou mulata nestes dois países.

O tema da mestiçagem aparece de diversas formas em "Tatou", seja na mistura cultural entre dois países, seja na questão racial, seja na mistura de classes sociais. "Há muita gente mestiça hoje em dia. Pessoas que viajaram, que têm um pai que vem de um meio social e uma mãe que vem de outro. Escrevi uma heroína para a qual esta mestiçagem é um problema. Ela está em guerra com sua própria identidade", conta.

A autora recupera o abandono do pai, e a maneira como isso influenciou na sua personalidade. "Para ela, a questão da mestiçagem foi ainda mais complicada. Sua mãe é branca e seu pai, negro, abandonou a família. Queria muito abordar esse tema porque vejo muito isso no Brasil, conheço muitas histórias parecidas. Quis falar destes pais ausentes e das consequências sobre os filhos", afirma Anacaona.

"Quem gosta, castiga"

A crítica à sociedade francesa também está presente em "Tatou". A autora não se intimida na hora de criticar o modelo de integração cultural francês."Claro que existem críticas à sociedade francesa. Como a gente diz em francês, 'Qui aime bien, châtie bien', ou seja, 'Quem ama, castiga", brinca a escritora. 

"O modelo francês de integração é de indiferença às diferenças", diz Paula. "Todo mundo 'é' cidadão francês, negamos as diferenças, e acho que hoje em dia este modelo tem alguns limites. Por exemplo, a questão do 'afro-francês': na França não existe esse termo", contextualiza. 

Destilando humor e ironia, a autora descreve em pormenores a classe alta brasileira, seus hábitos "neocolonialistas", como a permanência do hábito de ter empregadas domésticas, e seu estilo de vida de excessos. 

"Eu me diverti muito escrevendo isso. Vendo do lado de fora, temos um olhar mais crítico. Me interessava como uma mulher negra no Brasil poderia se integrar à classe alta [como a protagonista, Victoria]", diz.

*Para ver a entrevista, clique no vídeo abaixo:

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