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“A música brasileira é muito maior do que as confusões políticas do país”, diz Kiko Loureiro, guitarrista do Megadeth

Por Daniella Franco

Ele foi o único brasileiro a subir nos palcos do Hellfest, o maior festival de metal da França e um dos mais importantes da Europa. Mas a modéstia do guitarrista do Megadeth, Kiko Loureiro, faz com que ele divida esse título: “também tem uma galera muito boa brasileira trabalhando na produção e nos bastidores de grandes festivais e eventos internacionais, e que são peças fundamentais na cena musical”.

Kiko Loureiro recebeu a RFI para uma entrevista exclusiva, nos camarins do Hellfest, antes mesmo da coletiva de imprensa do Megadeth aos jornalistas que cobriam o festival, realizado no último fim-de-semana na cidade de Clisson, oeste da França. Agarrado a sua guitarra, Kiko falou de política, feminismo, e claro, de música.

“A música brasileira é muito maior que a bandidagem, a ladroagem ou as confusões políticas do país”, diz. O guitarrista do Megadeth fala com um grande conhecimento de causa. Não é à toa que metaleiros brasileiros, enrolados em bandeiras do Brasil ou vestidos de verde e amarelo, se destacam na multidão de headbangers usando o preto no Hellfest.

“Eu sou um adorador fanático da música brasileira”, diz, enumerando alguns de seus preferidos: Baden Powell, Villa-Lobos, Lenine, Yamandu Costa, Hamilton de Holanda.

Kiko mora fora do Brasil desde 2010, período que passou entre a Finlândia e os Estados Unidos, mas frequentemente visita sua terra natal. “Eu não sinto de perto aquela angústia dos brasileiros, mas sempre falo com muitos amigos e vejo que está todo mundo muito desacreditado”, lamenta.

Por isso, mesmo na estrada com o Megadeth, o guitarrista brasileiro não deixa de acompanhar a campanha eleitoral dos candidatos à presidência e, em outubro, vai votar nos Estados Unidos. “É preciso que a gente faça de tudo para que o país se torne melhor e cada vez mais a gente segure nossa bandeira com orgulho.”

Megadeth, “uma experiência de vida incrível”

A banda americana Megadeth foi uma das principais atrações do Hellfest, junto com outros grandes nomes do metal e do hardcore, como Iron Maiden, Alice in Chains, Marylin Manson, Judas Priest, Deftones, Limp Bizkit, entre dezenas de grupos emblemáticos que passaram pelos palcos do festival nos três dias de evento. Kiko, também fez parte da Angra, uma das principais bandas de heavy metal do Brasil.

Integrar o Megadeth é, segundo ele, “uma experiência de vida incrível”. Fazendo parte do quarteto californiano desde 2015, Kiko gravou o álbum “Dystopia”, lançado em 2016, e cuja faixa homônima venceu o Grammy de Melhor Performance de Metal em 2017.

O Megadeth segue em turnê pela Europa até meados de julho. Na agenda dos metaleiros californianos ainda restam dez shows do “Dystopia”. Suíça, Itália, Espanha, Portugal, além de Lyon e Estrasburgo, na França, estão na agenda da banda que tem 35 anos de estrada e 15 álbuns gravados.

O sucesso de um músico brasileiro no metal não é comum. Apesar de o Brasil ser o país de bandas importantes deste gênero, como Sepultura e Angra, o espaço para esse estilo ainda é escasso. “O Brasil não é um país em que as pessoas querem tradicionalmente tocar rock; outros estilos são predominantes no país”, ressalta.

Além disso, Kiko observa que as bandas de rock brasileiras têm um sucesso muitas vezes local, na cidade de origem ou nacionalmente, porque têm uma estratégia diferente dos grupos da Escandinávia, com forte tradição no hardcore e no metal. “Eu morei na Finlândia, que é pátria de muitas bandas, como a Nightwish, por exemplo. Mas como eles não têm uma cena local e falam uma língua pouco praticada no mundo, já formam os grupos pensando em uma carreira internacional, sempre com a comunicação em inglês e pensando na conquista do público de fora”, diz.

Mulheres no metal

Kiko é casado com a pianista e tecladista finlandesa Maria Ilmoniemi e se diz consciente do quanto o espaço para as mulheres na cena do metal ainda é escasso. O Hellfest é um exemplo deste fenômeno: entre os mais de 160 grupos que passam pelo evento, poucos contam com mulheres.

“É fechado mesmo, e isso é muito ruim. Teve um movimento mais recente de cantoras líricas nas bandas de metal, mas se olharmos os grupos do passado, é verdade que não tinha nenhuma mulher”, diz.

No entanto, o guitarrista destaca que as mulheres vêm ganhando espaço na produção de eventos musicais na Europa. “Vemos cada vez mais iluminadoras, técnicas de som, coordenando um palco inteiro, mas ainda não vemos isso acontecendo no Brasil e nos Estados Unidos”, lamenta.

Sua vivência na Finlândia, onde a igualdade entre sexos é uma realidade, mostrou a ele o quanto a sociedade ainda precisa avançar na questão. Kiko lembra que ele tem duas filhas meninas, Livia e Stella, além de um menino, Dante, e se diz esperançoso quanto ao futuro. “Está mudando. Mas o mais legal ainda seria de ver bandas onde a mulher não seja só a cantora ou ter mais bandas só de mulheres”, conclui.

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