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Ameaça terrorista é usada para recusar migrantes na França, denuncia Ong

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Migrante resgatado das águas do Mediterrâneo no Estreito de Gibraltar é acolhido no sul da Espanha, em 27 de junho de 2018. REUTERS/Jon Nazca

Depois da crise dos migrantes, a crise da acolhida aos refugiados. Na véspera de um Conselho Europeu muito esperado sobre essa questão, a Cimade – Ong francesa que ajuda refugiados desde a ocupação nazista da França, há mais de 70 anos, denuncia uma Europa que agora se fecha aos candidatos a asilo. Um relatório da organização, divulgado nesta quarta-feira (26), mostra um aumento significativo no número de migrantes rejeitados nas fronteiras francesas em relação a 2017.


Segundo o documento da Cimade, o número de "não-admissões" de migrantes na França no ano passado foi de 85.408, ou seja, 34% a mais que em 2016 (63.845 recusas). Em 2015, ano da reintrodução dos controles nas fronteiras da Europa, foram realizadas 15.849 não-admissões. O número de migrantes recusados aumentou desde 2015, especialmente na região dos Alpes, segundo os números divulgados pela Ong francesa. No relatório, a associação aponta "um desvio da luta contra o terrorismo para controlar a migração" dentro de "uma Europa que se fecha".

Jean-Claude Mas, secretário-geral da Cimade, denuncia ainda uma “mudança para salvar as aparências” em entrevista à RFI. “Efetivamente, dessa vez a França resolveu participar desse esforço de solidariedade”, diz Jean-Claude Mas sobre a recente polêmica envolvendo países europeus, como Itália e Malta, que se recusaram a receber os navios de Ongs estrangeiras de resgate de migrantes no mediterrâneo, como o Aquarius e o Lifeline.

“Mas a situação não pode continuar desse jeito, barco a barco, situação por situação. Com uma mobilização que nunca se concretiza em nível europeu, de solidariedade e de salvamento de vidas”, aponta. “Precisamos de uma política europeia de acolhimento de migrantes, colocando no centro da questão a dignidade e o direito de acolhida das pessoas”, afirma Mas.

O diretor da Ong francesa afirma que não existe um elo de solidariedade que reúna os países europeus. “Por enquanto, temos apenas algumas dezenas ou centenas de pessoas que serão recebidas. A questão, no entanto, é que possamos estabelecer leis que garantam o acesso ao território europeu, para evitar que pessoas continuem dentro de barcos em mar aberto”, analisa Jean-Claude Mas. “É preciso antecipar esse tipo de situação, abrindo uma via legal de solicitação de acolhimento e asilo, sem ter que passar pela etapa de navios que esperam no oceano, correndo perigo”, afirma.

Críticas de Macron às Ongs estrangeiras de ajuda aos migrantes

O presidente francês, Emmanuel Macron, no entanto, criticou nesta terça-feira (26) a Ong alemã Lifeline, que salvou 134 migrantes no mar Mediterrâneo, por ter "violado todas as regras e a guarda costeira da Líbia". Macron disse ainda que a situação a longo prazo era “inaceitável”. “Em nome do humanitário, não há mais controle algum, e, no final, fazemos o jogo dos contrabandistas, reduzindo o custo dos riscos da passagem", afirmou.

Jean-Claude Mas, no entanto, opõe-se completamente ao posicionamento do chefe de Estado. “Falo em nome de diversas associações e estamos consternados por este tipo de conversa que deslegitima e descredibiliza a Europa, além de duvidar de um trabalho que envolve o compromisso de Ongs europeias”, atacou o diretor da Cimade.

“Fazemos o que é necessário, salvamos vidas, tranquilizamos pessoas em situação de estresse e perigo. Comparar isso a uma ação de cumplicidade com os traficantes de pessoas é insuportável”, disse, completando que diversas associações de direitos humanos encaminharam ao presidente francês um pedido de explicação sobre sua última crítica aos barcos humanitários.

Um dos argumentos de Emmanuel Macron para controlar a chegada de migrantes ao território europeu é que se o continente abrir completamente suas portas, isso criará um argumento de ataque para partidos e formações populistas e de extrema-direita, como aconteceu na Itália. Mas, para Jean-Claude Mas, “isso é falso. Essa lógica diz que, se a Europa está tomada por uma onda de populismo, devemos nos aproximar dessas pessoas e desses partidos. Mas o que precisamos é do contrário, é mostrar que somos, neste momento delicado, ainda mais fortes em termos de nossos valores, reivindicando uma Europa solidária”, declarou.