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Sonho, rito e alteridade: ritual xavante inspira solo de brasileira em Montpellier Danse

Por Márcia Bechara

Ela levou para os palcos da edição 2018 de Montpellier Danse um solo inspirado em rituais xavantes do centro do Brasil. “Alexandre” é um trabalho que desconstrói discursos, idiomas, gêneros e corpos, performando o sonho, o ritual e a transformação. O RFI Convida nesta quinta-feira (5) a bailarina, música e coreógrafa Paula Pi, direto do festival, no sul da França.  

*Para ouvir a entrevista na íntegra, clique na foto acima

Com passagens pelo teatro, pela dança e pela música no Brasil, a performer brasileira Paula Pi desenvolveu grande parte de sua pesquisa no Centro Coreográfico nacional de Montpellier, dentro do programa Exerce. Em 2015, ela apresentou sua primeira criação na França, “Ecce (H)omo”, que traz inspirações do trabalho da coreógrafa alemã Dore Hoyer.

Em 2018, Paula, que realiza também um trabalho relativo ao corpo e às questões de gênero, apresenta “Alexandre”, nascido a partir de uma gravação da voz de um índio xavante brasileiro, que anuncia um ritual de iniciação.

“A cultura xavante é completamente baseada no sonho, mas o sonho deles é diferente do nosso. O sonho deles é coletivo e estrutura toda a sua cultura. Eles aprendem a sonhar”, conta Paula Pi. “Os adolescentes vivem durante cinco anos em casas isoladas na ponta da aldeia e passam por vários rituais para aprender a sonhar ou receber sonhos. Os sonhos mais importantes são os sonhos de rituais. Eles fazem rituais para sonhar com rituais, o que significa também que todos os rituais foram sonhados”, relata a artista brasileira.

“Existe um livro muito interessante chamado ‘Performing dreams’, de uma antropóloga norte-americana que passou vários anos numa aldeia perto de onde eu estava, que fala sobre toda essa questão da performatividade dos sonhos. E de como, a partir de um sonho, os xavantes vão criar um ritual”, conta.

“O índio que fala na gravação me disse que antes que eu chegasse, eu já estava lá, porque ele havia sonhado comigo. Aquilo foi um choque, e essa frase continua me trabalhando muito. Para eles, o que acontece no sonho, já está acontecendo”, afirma Paula. “Tentamos trabalhar com a questão do sonho, mas sem entrar na psicanálise ocidental”, continua.

Os xavantes internalizam a noção do sonho como instrumento de caça, segundo conta a performer brasileira. “Para sair para caçar, apesar da caça ter diminuído muito na reserva, eles precisam antes sonhar com as futuras presas. Senão não dá certo. No momento em que eles sonham com o animal, ele já está com medo, então fica mais vulnerável à caça”, relata a artista.

Parceria com coreógrafo iraniano

“Alexandre” nasce originalmente como um duo com a participação do coreógrafo iraniano Sorour Darabi, também em cartaz em Montpellier Danse 2018 com “Savušun”. “Quando imaginei a peça, era um solo, depois decidi trabalhar em um duo, que eu nunca tinha feito. Essa dualidade tinha a ver com o principal mito fundador da cultura xavante, que fala de dois gêmeos que criaram tudo. O poder supremo dos criadores xavantes não é somente o de se transformar em alguma coisa, mas também o de se destransformar. E apenas os dois gêmeos tinham esse poder”, conta a coreógrafa.

“Queria trabalhar com a ideia do duplo, como um corpo pode transformar ou formar outro corpo, mas fui percebendo ao longo do processo que havia algo de muito pessoal nesse rito de iniciação, nessa experiência que fiz sozinha junto com os xavantes”, relata Paula. “A peça voltou a ser um solo, então. Tentamos trabalhar com a impossibilidade desse duo, sendo que, no fundo, o que está em jogo é a busca de uma alteridade em si, como é que busco o outro em mim mesma”, detalha a artista.

“Mas Sorour Darabi está presente o tempo todo no trabalho, existem materiais coreográficos concretos que criamos a dois, e que agora faço com o Sorour que não está lá. A questão da ausência e da presença são muito importantes em ‘Alexandre’”, conclui.

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