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Diversidade do time francês faz renascer slogan “negros, brancos e árabes”, de 1998

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Griezmann, Pogba e Mbappé (da direita à esquerda) REUTERS/Dylan Martinez

Vinte anos após sua primeira vitória numa Copa do Mundo, a França se une mais uma vez numa torcida fervorosa em todos os cantos do país para acompanhar a final dos “Bleus” contra os croatas, no domingo (15). E, nesse contexto, ressurge o slogan “Black Blanc Beur” (“Negros, Brancos e Árabes”), da Copa de 1998, chamando atenção para o multiculturalismo francês, pouco representado nas imagens turísticas de Paris, mas presente no time de futebol de Didier Deschamps.


Em 1998, quando o slogan foi criado, a ideia era ressaltar a presença de várias origens entre os jogadores – e, claro, torcedores – da equipe francesa. Isso aconteceu alguns anos antes de Jean-Marie Le Pen, do partido Frente Nacional, da extrema-direita (atualmente Reunião Nacional), um dos candidatos mais conservadores da política francesa, chegar ao segundo turno das eleições presidenciais, como lembra o editorial do jornal Libération, assinado por Laurent Joffrin.

“Será que nós acreditamos realmente que o esporte não significa nada e que esse evento nacional não diz nada sobre a nação? Que esses esportistas de exceção vêm de lugar nenhum? […] Como a maioria dos jogadores de futebol, são crianças da classe popular, ou rejeitados da classe média”, escreve o jornalista.

Torcida nos botecos e nos bares chiques

Na França, o debate sobre a raça fica dividido entre os que se sentem incomodados com o termo, exigindo até sua extinção, garantindo tratar todos da mesma forma e, do outro lado, os que lutam contra as opressões e denunciam as desigualdades ligadas ao racismo e às diferenças de classe.

Para Joffrin, diretor-chefe da redação do Libération, por exemplo, a torcida jovem da Copa da Rússia “não dá a mínima para a origem dos jogadores da equipe da França”. “Eles sacodem a bandeira e cantam a Marselhesa num patriotismo futebolístico espontâneo e pacífico. Nada de ‘Black, Blanc, Beur’: são atacantes, goleiros, artilheiros. Pensamos na canção de Maurice Chevalier: ‘E tudo isso faz deles excelentes franceses…’”

“Para que a avenida Champs-Elysées fique cheia, é preciso que a periferia também participe da festa, não somente os bairros ricos”, diz o editorial do Libération. “Celebramos nos botecos, como nos bares chiques. Precisamos nos liberar da obsessão identitária”.

Slogan traduz o sentimento de uma parte da sociedade

O sociólogo do esporte Patrick Mignon, entrevistado pela RFI, afirma que o slogan “Black, Blanc, Beur” continua atual. “É um lema que diz que somos uma nação feita de brancos, de pretos, de árabes, e isso não agradou a uma parte da sociedade em 1998. Mas ele é importante porque nos lembra que nós seremos ‘brancos, pretos e árabes’ no momento de celebrar e de estarmos contentes ou talvez na hora de ficarmos tristes, após a final”, reflete.

Além disso, o slogan renasce num momento em que os temas do multiculturalismo, da integração e da migração agitam a Europa. “Em 1998, quisemos acreditar que essas problemáticas estavam resolvidas. Nós dissemos: ‘A equipe francesa venceu e, se o multiculturalismo funcionou com eles, vai funcionar em toda parte’. Mas percebemos que a questão era mais complexa e que há fenômenos de integração incontestáveis e de separação também, é esse nosso futuro. ‘Black Blanc Beur’ continua sendo um slogan atual, ainda que não seja muito científico, é uma noção que traduz as preocupações do povo”, reitera o sociólogo.

Uma coisa é inegável, como lembram os usuários da internet: seja para os que dizem ignorar as diferenças raciais, seja para os que apontam as desigualdades na França mestiça, o lema da República francesa mudou temporariamente. Passou a ser “Égalité, Fraternité, Mbappé”.

Com informações de Jean-Baptiste Marot