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Psiquiatras franceses defendem Plano Nacional para tratar distúrbios mentais

Por Elcio Ramalho

A revista L'Express dedica uma ampla reportagem aos problemas psiquiátricos enfrentados pelos franceses e traz um panorama das situação dos serviços de tratamento e as propostas para melhorar o atendimento a uma população que sofre de vários distúrbios mentais graves.

Um em cada cinco franceses, ou seja, 12 milhões de pessoas, desenvolve ao longo de sua vida uma patologia mental, que pode ser esquizofrenia, depressão, ansiedade, autismo, bipolaridade, entre outras. Essas doenças lideram os gastos da Seguridade Social, estimados em € 22,6 bilhões, e provocam 10 mil suicídios por ano, a maioria entre jovens adultos, um número de três vezes maior que as vítimas de acidentes nas estradas, compara a revista semanal. 

 Um dos problemas abordados pela reportagem é a falta de programas de prevenção, o que faz com que muitos pacientes demorem para identificar o mal e começar um tratamento adequado. As autoridades francesas demonstram desde o início do ano preocupação com o tema, mas as medidas anunciadas estão longe de responder às verdadeiras necessidades.

Para demonstrar a extensão do problema, L'Express traz uma longa entrevista com o médico Pierre-Michel Llorca, chefe do centro hospital de Clermont-Ferrand, região central da França. Ele é coautor do livro "Psiquiatria: estado de urgência", no qual traz um diagnóstico da situação, desde o desamparo sentido por muitos pacientes e seus familiares até as falhas dos serviços públicos para identificação e tratamento.

Durante um ano, ele e a pesquisadora  Marion Leboyer ouviram profissionais de saúde, falaram com associações de pacientes e até geógrafos, economistas e epidemiologistas.

O trabalho resultou em 35 propostas, que segundo a L'Express, devem servir de orientação para o governo francês na preparação da reforma do setor da saúde. A psiquiatria deve se tornar uma prioridade nacional, estima a publicação.

Diminuição da expectativa de vida

De acordo com o doutor Llorca, as doenças psiquiátricas são o primeiro fator de pedidos de licença médica no país e a esperança de vida dos doentes diminui em média de 10 a 20 anos, comparada com a população normal.

Ele identifica dois fatores que dificultaram a adoção de uma política pública eficiente: problemas econômicos e a imagem negativa relacionada à patologia mental.

Na entrevista, LLorca explica que a França, desde o século 19, garantia um bom número de leito para internamento dos pacientes, mas que a partir dos anos 1970, houve uma mudança com a entrada em vigor de uma política de descentralização e criação de estruturas regionais para facilitar o acesso de doentes a tratamento e prevenção.

A bela iniciativa, que seguia recomendações internacionais de diminuição de leitos hospitalares e reforço de centros médico-psicológicos, não vingou, principalmente por problemas de orçamento.

O especialista comentou que o tempo de espera para atendimento é longo, agravando o estado dos pacientes que necessitam tratamentos mais longos. Outro problema apontado pelo especialista é generalização dos serviços. Cada doença necessita tratamento específico e, muitas vezes, profissionais não têm competência necessária para abordar o tratamento.

Sugestões para melhoria

No livro lançado com apoio da Fundação FondaMental e do Instituto Montaigne, são feitas sugestões para fazer da psiquiatria um setor que atinge um nível de alta performance. Entre eles, o estabelecimento de um Plano nacional, como o adotado contra o Câncer.

Durante anos, a estrutura deste setor era desintegrada e com qualidade que variava de uma região à outra. Depois da criação do Instituto nacional do Câncer, houve uma padronização dos serviços e de apoio à pesquisa. Para o dr. Llorca, a psiquiatria precisa do mesmo impulso, por isso ele defende, assim como os especialistas envolvidos com o tema, a adoção de uma Agência Nacional da Psiquiatria.

A estrutura permitiria investir no tratamento mais próximo ao paciente,  recursos para os hospitais e uma oferta de cuidados específicos para os pacientes em situação mais grave.

Ação do governo francês

O governo francês criou um comitê estratégico composto de personalidades qualificadas para repensar às dificuldades do setor. Mas, segundo Pierre-Michel LLorca, duas reuniões por ano, como previstas no calendário, são insuficientes para responder aos grandes desafios da psiquiatria no país. 

Para os especialistas, dois países são considerados modelos para o trabalho de prevenção: a Dinamarca, que tem um trabalho de sensibilização da população em relação à depressão em lugares públicos e privados como escolas e locais de trabalho, e a Austrália, que criou centros para consultas gratuitas para o público jovem com médicos e psiquiatras.  

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