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“A oratória de protesto do rap estava um pouco adormecida”, diz MC Rael, em turnê na Europa

Por Maria Paula Carvalho

Nascido e criado na periferia de São Paulo, o cantor e MC Rael é uma das referências do rap brasileiro. Em sua primeira turnê pela Europa, ele fará dez shows, em onze dias, passando por sete países. Em entrevista à RFI em Paris, o artista falou sobre música e sobre o momento atual do Brasil.

 

Rael apresenta o novo álbum “Coisas do meu imaginário”, pelo qual foi indicado ao Grammy Latino de 2017 na categoria música urbana.

“Esse trabalho foi concebido em parceria com o Daniel Ganjaman, produtor que assinou discos do Criolo, Racionais MC’s e Planet Hemp. Eu tive a honra de ter parcerias como Chico Cesar, Black Alien e Daniel Yoruba, entre outros nomes. Nós concebemos esse disco em apenas vinte dias. Eu só tinha uma música pronta, que se chama Aurora Boreal, e o resto eu tive que me desdobrar para fazer”, conta.

A turnê pela Europa consolida uma carreira solo que começou em 2010. Viajar para outros países, no entanto, não é novidade para esse paulistano que já se apresentou diversos em festivais, especialmente no Canadá e nos Estados Unidos, onde apresentou o seu primeiro disco solo, “Música Popular do Terceiro Mundo".

Rael também já tocou no lendário Joe’s Pub, em Nova York, casa conhecida por ter recebido o primeiro show da cantora Amy Winehouse na América. Mas confessa que nunca sonhou que a música o levaria tão longe.

“Eu nem imaginava estar vivendo isso agora, mas foi acontecendo. A minha primeira experiência foi em 2008 com o grupo Pentágono, aqui na França. Na época eu estava começando. Eu fui criado na cena do rap, então eu só rimava, mas comecei a tocar violão”, relembra. “Eu estava quebrado financeiramente e então fui tocar debaixo da torre Eiffel. Eu achava que a língua era uma barreira, mas ali eu percebi que não. Comecei a tocar um Djavan, um Jorge Benjor, e percebi que as pessoas gostavam bastante. Eu fiquei 45 minutos lá e ganhei € 90 e eu vi que era possível rodar com a música brasileira. Vi que ela tem respaldo no resto do mundo. Isso é devido ao fato de que os grandes mestres construíram essa trajetória para a gente”, completa.

A turnê, que começou em Portugal e passa pela França, segue depois para Alemanha, Espanha, Suíça, Irlanda e Reino Unido.

“Em Portugal, eu tive a chance de tocar com o Natiruts, uma banda bem conhecida do Brasil, no Porto e Lisboa. E as pessoas já conhecem bastante esse trabalho lá. De agora em diante vai ser a minha primeira experiência com o meu show solo e então vou começar a sentir o retorno, mas eu estou animado, é uma honra poder estar rodando com a música. É bem corrido, cansativo, mas prazeroso”, diz o rapper.

Rap: linguagem para crítica social

“A gente acaba verbalizando o que vê, o que ouve, o que sente das pessoas. Eu nasci num lugar chamado Jardim Iporanga, na periferia de São Paulo, então eu vivi muitas situações adversas com problemas sociais, violência policial, racismo. Racionais MCs foi uma banda que me educou, que me trouxe autoestima. Antigamente, se tivesse uma piada, um bullying sobre a minha cor, eu não tinha uma resposta e depois eu comecei a ter.  Então eu também tentei fazer esse papel, esse diálogo e servir como um conforto para o coração das pessoas. Eu acho que o meu papel como músico é falar do que acontece e trazer paz e amor”, afirma Rael

Momento atual brasileiro

“Eu estou bem triste porque se instalou um governo fascista, que desvaloriza a mulher, o negro, o índio, que desvaloriza a cultura, a educação, então isso me preocupa bastante. Espero que tudo o que o Bolsonaro falou em suas entrevistas e projetos de governo, que ele não consiga concluir metade do que ele falou. Me preocupa também o problema das armas”, diz Rael. “Com o rap a gente tenta banir esse tipo de comportamento, de violência. O rap vai começar a falar mais disso. Estava um pouco adormecida essa oratória do protesto”, conclui.

No Brasil, Rael tem shows marcados até 2019. O seu próximo trabalho será uma homenagem a Vinícius de Moraes.

“Essa ideia começou em 2006, quando eu fui convidado para um programa, com o Criolo, e a gente cantou os afro-sambas. Depois um outro programa me chamou para fazer versões e quando eu estava ensaiando, eu comecei a trazer para o meu lado, para o rap e vi que podia virar um show”, explica. “Eu tive a honra de conhecer a família do Vinícius e eles amaram e sugerem para a gente gravar um disco. Acho que o meu próximo trabalho poderá ser de releituras dele. Esse projeto tem sido bem recebido pela crítica, pelo público mais jovem, que não conhecia a obra do Vinicius de Moraes, e pelo público mais velho, que gosta e só reconhece as músicas por causa dos refrões”, conta o artista.  

 

 

 

 

 

 

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