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"Ninguém sairá vitorioso da guerra no Iêmen", afirma secretário-geral da ONU

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Em entrevista a rádio francesa France Inter Antônio Guetters diz que “Situação humanitária no Iémen é absolutamente desastrosa” Captura de vídeo

De passagem pela França para participar do Fórum de Paris pela Paz, o secretário-geral das Nações Unidas, Antônio Guterres, falou à rádio francesa FranceInter sobre a urgência do conflito no Iêmen. Ele também ressaltou que o clima mundial atual é semelhante ao de antes da Primeira Guerra Mundial, além de lembrar a importância do multilateralismo para as potências globais.


“Sem a ajuda humanitária, teríamos uma situação de fome numa dimensão ainda nunca vista neste século”, afirmou Guterres sobre o Iêmen. “Mas há uma oportunidade de fazer com que os atores diretos desse conflito entendam que ninguém sairá vitorioso dessa guerra. Estamos num impasse e é preciso uma solução política, infelizmente. Há uma plataforma para a criação de uma solução que já foi apresentada aos diferentes partidos e a primeira reação foi positiva. Mas permanecemos bloqueados com a situação de Hodeida”.

Segundo o chefe da ONU, diversos Estados já chegaram ao consenso de que “é preciso estabelecer um cessar-fogo” para “evitar o pior no ano que vem”. “Devemos parar o combate, começar o debate político e se preparar para uma resposta massiva e humanitária”, diz.

Clima similar ao da Primeira Guerra

Guterres também disse que existem muitas semelhanças entre o período atual e 1914, ano de início da Primeira Guerra Mundial. “Em 1914, a Europa era multipolar, mas sem nenhum mecanismo multilateral de regulação governamental. E a multipolaridade sem governança multilateral gera o conflito. Hoje temos muitos organismos de governança multilateral, ainda que o Conselho de Segurança se encontre paralisado. Não estamos na mesma situação, mas há riscos similares”.

Entre os paralelos que podem ser feitos entre 2018 e 1914, Guterres aponta a tendência, no comércio internacional, de tomar decisões unilaterais, com consequências para a economia mundial, além da paralisia do Conselho de Segurança da ONU – inútil diante de guerras como a da Síria ou do Iêmen – e o desconforto de vários setores da opinião pública. “Muitas pessoas sentem que a globalização as deixou de lado e que os movimentos migratórios foram mal administrados pelos governos”, diz.

“Eles sentem que as respostas políticas tradicionais não são mais eficazes, que a direita e a esquerda são incapazes de lidar com os problemas atuais. Então, tem cada vez mais pessoas que não acreditam mais no sistema e que caem no discurso populista, xenófobo, que cria uma inquietude com riscos reais”, analisa Guterres.

EUA, potências mundiais e mudanças climáticas

Guterres também ressaltou que a existência de instituições multilaterais eficazes é importante para todas as potências mundiais, que hoje são numerosas. “Antes, nos anos 1990, era preciso convencer o presidente dos Estados Unidos sobre a necessidade de uma intervenção [na época, para acabar com o conflito no Timor Oriental]. Hoje, não é mais assim. Tem a China, a Rússia, a Índia, uma variedade de potências no mundo. Mesmo Turquia, Irã ou Arábia Saudita têm uma influência grande em nível regional. É um mundo fragmentado e é por isso que o multilateralismo é importante”, reforça.

Além disso, Guterres declarou que a mudança climática está indo mais rápido do que o previsto. “Os fatos são mais graves do que as previsões científicas mais pessimistas. É visível em toda a parte, os desastres naturais, a situação no Ártico, a temperatura do mar. Fizemos o Acordo de Paris e as pessoas disseram ‘Pronto, está feito’. Não, não é verdade”, diz.

De acordo com o secretário-geral da ONU, até hoje os engajamentos do tratado de 2015 não foram respeitados. “O Acordo de Paris não foi suficiente, ou seja, mesmo que as promessas tivessem sido concretizadas, ainda assim teríamos um aumento de temperatura de 3 graus, no mínimo. É preciso engajamentos mais fortes”.