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Será que museus africanos conseguirão conservar obras de arte devolvidas pela França?

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Entrada do Museu das Civilizações Negras, no Senegal RFI / Guillaume Thibault

O relatório de especialistas propondo a restituição de milhares de obras de arte de volta à África foi entregue nesta sexta-feira (23) ao presidente Emmanuel Macron, que deverá julgar se o projeto pode ser executado ou não. Alguns museus africanos já comemoram, mas a ideia não agrada a todos.


Antes mesmo de ser entregue ao presidente Macron, o relatório de restituição da herança cultural da África foi divulgado e comentado por diversos setores da sociedade francesa. O documento fala apenas de obras africanas, já que cerca de 90% dos bens culturais do continente estão fora dele.

Os dois autores, os universitários Bénédicte Savoy e Felwine Sarr, recomendam ao Estado francês diversos acordos bilaterais com governos africanos dispostos a fazer o pedido de restituição. A intenção é possibilitar o retorno de todos os bens culturais que saíram da África durante período colonial francês.

A notícia agradou o diretor do Museu das Civilizações Negras de Dacar, Hamady Bocoum. “O mais importante é a intenção. Mas acho que uma das condições é ter equipamentos adequados”, afirma, lembrando do sabre de El Hadj Omar Tall, chefe religioso senegalês vencido pelos franceses e cuja arma foi roubada no fim do século XIX. “Foi uma forma de humilhação. Esse sabre já veio emprestado duas vezes e sempre custou caro. Agora, vamos reivindicá-lo”.

O retorno das obras é também uma forma de reescrever a história africana, para Hamady Bocoum. “Onde quer que esteja, o patrimônio africano sempre partiu em condições difíceis: colonização, escravidão. É uma bela iniciativa. Não para culpabilizar, apenas para entender, aprender. São coisas que não devem mais se reproduzir”, diz.

“Será que a África deve aceitar obras para depois estragá-las?”

Nu Barreto, artista da Guiné-Bissau, gosta da teoria, mas reprova a prática. “A parte positiva é que as obras vão poder regressar às terras de origem. É bom receber, mas é bom também ter onde receber, porque convidar alguém para dormir na sua casa sem ter cama para dar, se for para dormir no chão, é muito complexo. Será que a África deve recuperar as coisas para depois estragá-las?”, reflete.

“Raros países africanos têm capacidade para assegurar uma manutenção dessas obras. Nenhum desses estados, praticamente, estão prontos para recepcionar essas obras. Estou de acordo para que as obras voltem, mas se for para voltar e depois estragarem e desaparecerem... Quando se desaparece, é o traço, a riqueza, a cultura que se perde, a história de um povo, de uma comunidade, de um continente”, afirma.

No Benin, por exemplo, será preciso se preparar para receber as obras, caso elas sejam restituídas. O país dispõe de seis museus nacionais, mas são os privados que têm as melhores condições de conservação.

Consciente do estado deplorável de certos lugares, o governo lançou um programa de renovação e de construção de quatro novas estruturas. “No total, são 7500 metros quadrados”, resumiu Alain Godonou, diretor da “operação museus” da agência do patrimônio e do turismo de Benin. “É como um campo de futebol gigante”.

Mas a criação de novos prédios não acaba com todas as apreensões, segundo Alain Godonou. “O estado atual não é satisfatório. É preciso levar a sério e continuar a dar atenção a essas questões”, afirma.

Alain de Monbrison, fundador da galeria de arte africana Monbrison, em Paris, contesta vários pontos do relatório. Um deles é sobre a destinação das obras restituídas e de como serão atribuídos os países que receberão os objetos. A segunda, e mais importante, é o fato de que um dos principais argumentos do relatório entregue a Macron é de que as peças foram saqueadas. Segundo Monbrison, apenas algumas poucas foram de fato roubadas, enquanto a maioria foi vendida ou cedida.

“Na maior parte do tempo, esses objetos foram abandonados ou vendidos. Tudo isso [o documento] foi feito por pessoas não muito competentes, me parece, ou que deveriam ter se juntado a outros especialistas”, afirma Monbrison.