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Movimento francês dos coletes amarelos revela onda de rejeição inédita no país

Por Alfredo Valladão

Grupos de vândalos extremistas e muito bem organizados, infiltrados dentro de um pequeno contingente de manifestantes perfeitamente pacíficos e legais, passaram o dia enfrentando violentamente a polícia. E isso na avenida mais famosa do mundo, os Champs Elysées. A grande marcha de protesto lançada pelo movimento dos “coletes amarelos” afundou nessas imagens melancólicas. Mas não é uma boa notícia para o governo.

As autoridades francesas estão diante de uma onda de rejeição inédita na história do país. E as redes sociais têm tudo a ver. Os “coletes amarelos” tomaram corpo na Internet, há duas semanas, sem a ajuda de nenhuma organização política tradicional e sem nenhuma liderança. Começou como um protesto contra uma taxa sobre os combustíveis, passou rapidamente para uma denúncia da perda do poder aquisitivo das periferias e do mundo rural, e agora virou luta contra os impostos – a França é campeã da carga tributária na Europa.

O movimento, apoiado pela grande maioria dos franceses, não tem reivindicações claras. Tornou-se um desaguadouro para todas as frustrações acumuladas nos últimos trinta anos contra governos incapazes de resolver os problemas do país: desemprego, crescimento econômico pífio, déficit do Estado fora de controle, degradação dos serviços públicos, crescentes desigualdades territoriais... As redes sociais acolheram todas as angústias individuais dos franceses, à revelia dos políticos, sindicatos, partidos ou administrações.

Qualquer governo fica numa sinuca: negociar com quem? Além do mais, como resolver um leque tão amplo de demandas – muitas delas contraditórias? Todo mundo quer que os impostos baixem, mas também quer que os serviços públicos sejam melhores e mais extensos. E pouca gente aceita a ideia de reduzir a quantidade de funcionários públicos que custam uma baba.

As empresas precisam de uma forte redução da carga tributária para poder investir e relançar o emprego e o crescimento econômico. Mas uma parte da população pede um aumento dos impostos sobre o capital para compensar uma baixa para o resto das pessoas. A taxa sobre os combustíveis é para financiar a “transição ecológica” que todo mundo pede de maneira insistente. Mas quando bate no bolso do automobilista das regiões periféricas que precisa do carro para viver e trabalhar, a revolta explode.

Feixe de contradições

A verdade é que as autoridades nacionais, em qualquer país do mundo, não têm mais condições políticas e administrativas para dar uma resposta satisfatória para esse feixe de contradições. Paradoxalmente, a eleição de Emmanuel Macron à presidência da República já foi uma primeira revolta do eleitorado francês contra a incompetência da classe política e dos corpos intermediários tradicionais: a velha oposição entre direita e esquerda foi varrida, e os antigos partidos e sindicatos foram praticamente neutralizados. Só que agora não há mais instâncias intermediárias de diálogo para tratar com um movimento de massa que agrega, no ciberespaço, todo tipo de desilusões.

Para ganhar a eleição, Macron inventou uma espécie de política “start-up”: um imenso trabalho de consulta da população francesa que permitiu a elaboração de um programa de governo. Um trabalho de pesquisa horizontal, que utilizou as novas tecnologias digitais para criar conteúdos políticos fora de qualquer sistema ideológico. Mas para aplicar o programa era preciso um poder de decisão vertical forte – um modelo que já foi testado nas grandes empresas transnacionais da economia digital.

O problema é que isso só pode funcionar se esse tipo de governança continua usando as redes sociais para manter uma relação constante com a população, para vender o peixe de maneira permanente e adaptar a ação governamental às demandas que vão aparecendo.

Outro problema é que a pessoa que concentra o poder vertical não pode cair na arrogância e achar que tem sempre razão. Só que Emmanuel Macron e seu movimento político perderam de vista estas verdades. E agora temos uma França dividida com “coletes amarelos” sem programa, sem organização e sem representação política; e um poder central sem instrumentos para resolver a pendenga.

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