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Empresários franceses esperam ações concretas de Bolsonaro sobre dívida e crescimento

Por Maria Paula Carvalho

Convidado para uma palestra no Medef, a maior entidade empresarial francesa, o ex-secretário brasileiro de Comércio Exterior Welber Barral apresentou um quadro otimista do país após a eleição de Jair Bolsonaro, com uma guinada mais liberal na economia e previsão de crescimento. No entanto, os franceses demonstraram muitas dúvidas em relação à capacidade gerencial do novo governo para implementar mudanças numa sociedade fragmentada.

“Todas as previsões internacionais, inclusive do Banco Mundial e do FMI, preveem um crescimento de pelo menos 2% a partir do ano que vem, uma inflação sob controle, abaixo de 4,5%, o que permite uma taxa Selic bastante razoável, por volta de 6%”, explicou o especialista em negociações internacionais que fez parte do governo brasileiro entre 2007 e 2011.

O evento na sede do Medef, em Paris, aconteceu nessa terça-feira (27). Estiveram presentes representantes dos grupos Engie (energia), Citroen (setor automobilístico), Air Liquid (gás), Stoa (fundo de investimentos em infraestrutura), CMF (máquinas e infraestrutura), Unigrains (agroalimentar), Imerys (minério), Columbus (auditoria), entre outros.

“Nós temos um fenômeno de que haverá primeiro o crescimento, sendo que o desemprego deverá começar a cair de forma mais notável a partir de 2020”, afirmou Barral. O ex-secretário descreveu um quadro "bastante estável" aos empresários franceses. "A situação econômica é promissora no Brasil e há instituições muito sólidas", disse. “Eu diminuí um pouco os temores que foram manifestados aqui, mostrando, por outro lado, as oportunidades que existem, principalmente para investimento no Brasil”, explica Barral.

Encontro do Medef (Movimento dos Empresários Franceses) para discutir a política econômica no Brasil. RFI

Apesar das perspectivas positivas, os grandes investidores europeus não se contentam com vagas promessas e esperam ações mais efetivas para a contenção da dívida pública brasileira e a retomada do crescimento.

“Com Bolsonaro, as portas estão abertas, agora o problema é ver quais seriam as primeiras medidas desse novo governo para confirmar e traduzir essa vontade de trabalhar e de investir no Brasil, com medidas concretas para atrair o capital estrangeiro e confirmar um quadro mais liberal da economia”, explica Charles-Henry Chenut, conselheiro de Comércio Exterior da França para a América Latina e Caribe.

“Há também uma questão de legitimidade desse governo diante do Congresso, saber como vai reagir a oposição, qual seria essa oposição e como o Bolsonaro e sua equipe vão poder apresentar novas leis – com ou contra o Congresso. Isso é uma pergunta muito importante para o futuro imediato do Brasil”, argumenta. “A primeira questão é a dívida pública, o Brasil tem que reagir, tem que votar essa questão das pensões imediatamente”, desafia Chenut.

Charles-Henry Chenut, presidente da Comissão de Comércio América Latina e Caribe do Comitê Nacional de Conselheiros de Comércio Exterior da França. RFI

Além da prioritária reforma da Previdência, Barral aponta outro desafio para o novo governo: evitar que temas ligados a valores conservadores tomem muito tempo e espaço na agenda do Congresso Nacional, atrasando o ritmo das mudanças necessárias.

“Seguramente, quando a oposição se organizar, temas como a Escola sem Partido e outras questões sociais propostas pela bancada que apoia Bolsonaro, principalmente a evangélica, vão sofrer resistência, seja do Congresso, seja da opinião pública, e poderão até ser 'judicializados'. Então é previsível que haverá um nível de confronto por conta desses assuntos”, alerta.

Oportunidades para investimentos

Com um governo carente de verbas para infraestrutura, a expectativa é que surjam novas parceiras, além das já esperadas privatizações.

“Já há um processo de privatização que deve evoluir, então haverá oportunidades para a entrada de investimentos em empresas que serão privatizadas no Brasil e, também, por uma questão de demanda de infraestrutura, oportunidades de investimentos em concessões e parcerias público-privadas”, diz o ex-secretário de Comércio Exterior brasileiro.

Polarização cria incerteza

Investimentos, no entanto, dependem de credibilidade. E o Brasil terá que demonstrar capacidade para superar seus desafios. Outra dúvida dos franceses diz respeito à polarização atual da sociedade brasileira. Esse é o ponto crucial para o avanço do país, na opinião de Stéphane Witkowski, professor do Instituto de Altos Estudos da América Latina (Iheal) da Sorbonne.

“Depois de uma campanha eleitoral bastante forte e violenta, inclusive com agressões físicas, há um sentimento, visto de Paris, de uma sociedade um pouco perdida”, acredita. “Pode ser um terreno muito explosivo no Brasil, o terreno está muito minado. Os empresários gostam de segurança, de tranquilidade, de um quadro jurídico claro, bem definido, e essa linha econômica do futuro governo Bolsonaro não é tão evidente”, observa.

Além disso, ainda que Bolsonaro consiga apoio no Congresso para tocar as medidas pretendidas, segundo o professor francês, a falta de uma reforma política dificulta uma renovação verdadeira.

“Esse sistema de uma política muito fragmentada no Brasil em muitos partidos, com esse jogo no Congresso, isso não favorece a aceleração das reformas. Esse jogo favorece a corrupção”, afirma Witkowski.

Relação com os ministérios

Para dar conta de problemas graves como a corrupção, a violência e o baixo crescimento econômico, o governo Bolsonaro aposta em superministérios com nomes fortes.

“Tem figuras importantes como o juiz Sérgio Moro e o economista Paulo Guedes. São pessoas com personalidade forte”, diz Chenut. “O problema é saber como Bolsonaro vai gerir esses perfis complexos do Moro e do Paulo Guedes, que não suportam contradição e conflito”, questiona o Conselheiro de Comércio Exterior da França para a América Latina e Caribe. “E qual seria a longevidade deles no governo? Ninguém sabe como eles vão reagir ao estilo do presidente”, argumenta.

Outro problema apontado seria a falta de experiência de alguns nomeados. “Bolsonaro agradeceu aos eleitores dele através de nomeações de ministros carismáticos, que representam esses eleitores militares, evangélicos, e tem metade do governo que sai da sociedade civil, sem experiência nenhuma na política, e a gente viu, aqui na França, que isso pode ser um problema no futuro”, lembra Chenut.

Barral, por sua vez, alerta para outro problema. “Eles não trabalharam juntos antes, vai ser uma experiência nova, até porque muitos dos ministérios vão ser reestruturados. Então é possível que haja algum tempo de adaptação para definir como será o processo de decisão do novo governo”, explica.

A imprensa internacional exagerou?

Ao se reunir com empresários franceses, o ex-secretário do Comércio Exterior do Brasil começou dizendo que tinha a missão de "limpar a imagem errada" que muitos têm em relação a Jair Bolsonaro. Uma imagem, em parte, formada pela mídia.

“A imprensa internacional, em geral, se apegou a alguns pontos de campanha e talvez não tenha visto o quadro maior. A grande perspectiva é que a maior parte da população brasileira resolveu votar num candidato antissistema com base em temas importantes para a população, como a questão da segurança e contra a corrupção”, afirma. Porém, “acho que a imprensa não captou muito essa mensagem que a população brasileira deu, não apenas na eleição presidencial, mas inclusive nas eleições dos estados e do Congresso”, completa.

Contudo, “houve uma unanimidade da imprensa internacional”, lembra Witkowski. “Não é unicamente americana, europeia ou de outros países, mas tem uma visão da imprensa até econômica e financeira chamada de mainstream que mexeu com a imagem do Brasil”, explica o professor do Instituto de Altos Estudos da América Latina da Sorbonne.

“A visão dos jornalistas internacionais, principalmente na França, é uma visão totalmente errada”, estima Chenut. “Apresentar o Bolsonaro como um homem de extremos, que vai transformar o Brasil numa ditadura, não é o caso hoje. Nós temos informações para a economia que são boas, com pessoas de qualidade para futuros ministérios e secretarias”, acredita.

Prioridade para os Estados Unidos

Por fim, os investidores franceses temem que a União Europeia não seja uma prioridade comercial para o novo governo brasileiro.

“O posicionamento do Bolsonaro não é de olhar para a Europa, o interesse dele vai principalmente para a América, Estados Unidos. A nomeação do Ministro das Relações Exteriores confirma isso”, diz Chenut. “Ele é pró-Trump e há uma equipe ao lado do presidente que quer trabalhar mais com os Estados Unidos do que com a França”, completa.

Com experiência de quem esteve na Secretaria de Comércio Exterior do Brasil entre 2007 e 2011, Barral tenta acalmar os investidores franceses.

“Há claramente um alinhamento ideológico entre o presidente americano e Bolsonaro por várias razões, de uma pauta conservadora, principalmente. Mas isso não quer dizer que o Mercosul vai deixar de negociar com a União Europeia. A União Europeia é talvez o acordo mais importante que deveria evoluir envolvendo o Brasil”, finaliza.

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