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Opinião: reivindicação permanente de igualdade faz parte do DNA dos franceses

Por Alfredo Valladão

O quebra-quebra foi impressionante. Paris depredado, com cenas insurrecionais, por extremistas violentos infiltrados numa manifestação do movimento dos “coletes amarelos” contra os impostos e a queda do poder aquisitivo. No resto da França, milhares de pessoas bloquearam estradas, prefeituras e supermercados. E a tensão política tornou-se insuportável. Ninguém consegue enxergar uma saída.

Os “coletes amarelos” se mobilizam graças às redes sociais, de maneira espontânea, sem organização e sem lideranças. As reivindicações crescem a cada hora. Hoje, não é mais a rejeição do novo imposto sobre o óleo diesel para financiar a transição ecológica. São mais de duzentas novas demandas sobre o nível de vida que não dá para viver, as desigualdade sociais, a utilização do dinheiro dos contribuintes, a qualidade e presença dos serviços públicos e até arroubos de mudar o sistema político institucional do país. Tudo isso num ambiente contraditório: menos impostos e mais despesas do Estado, mais força na luta contra o aquecimento climático, mas sem sacrifícios – sobretudo para os mais pobres. “Vocês falam em fim do mundo”, gritam os manifestantes, “nós estamos preocupados com o fim do mês”.

Na verdade, os “coletes amarelos” são somente a versão francesa dos desafios que todos os dirigentes e países do planeta têm que enfrentar: como se adaptar à transição ecológica, mas também ao novo e avassalador modelo produtivo e social que vem junto com as tecnologias digitais. Como sobreviver num mundo globalizado, onde o Estado nacional não tem mais condições de resolver por si só os problemas da cidadania. E onde o território nacional se desagrega em metrópoles ricas e avançadas, deixando para trás as regiões rurais e periurbanas pobres e atrasadas.

Como manter uma democracia representativa quando redes de comunicação instantâneas e interativas exaltam a expressão direta de qualquer indivíduo e de qualquer ideia, minando o papel dos corpos intermediários representativos (partidos, sindicatos, parlamentos, governos) e a própria noção de “verdade”. Tudo vira “fake news” – até os resultados científicos mais sérios – e qualquer representante eleito é imediatamente contestado.

Nesse ambiente de desilusão e desconfiança generalizada contra todo tipo de autoridade, está cada vez mais difícil governar. E é inevitável que, no curto prazo, todas as tensões acabem se concentrando na credibilidade e aceitação do orçamento público. Quem paga e quem financia o Estado? Quem sai ganhando com a despesa pública?

Dialogar com quem?

Mas França é França. O estouro da boiada social e a reivindicação permanente de igualdade, nem que seja a custa de tudo mais, faz parte do DNA da população desde a revolução francesa em 1789. E os franceses também adoram discutir grandes ideias e grandes sistemas políticos, sobretudo quando tudo parece estar desabando. Por enquanto o governo do presidente Macron não sabe como sair do buraco: todo mundo está de acordo de que só um diálogo amplo com a população pode resolver o problema.

Mas dialogar com quem? Por enquanto, os “coletes amarelos” não confiam nos seus poucos autoproclamados representantes. E os corpos intermediários tradicionais – da direita ou da esquerda – estão todos desacreditados aos olhos da população. Esta por sua vez, vem estabelecendo, espontaneamente, listas de demandas cada dia mais pletóricas e contraditórias, mas sem poder  transformá-las em programa político ou econômico.

Debate geral é o que a França oferece de melhor

O movimento, organizado de maneira puramente horizontal, não tem condições de decidir uma estratégia ou objetivos factíveis. O governo Macron, legitimamente eleito há pouco tempo, tem um poder de decisão vertical. Mas não quer dizer que possa impor a sua vontade a essa imensa massa de cidadãos desorganizados, mas militantes.

Enquanto isso, a boa notícia é que tudo o que a França tem de intelectuais, políticos ou simples cidadãos, passa o dia inteiro nas rádios, televisões, jornais e redes sociais debatendo o que fazer para inventar uma nação capaz de sobreviver, com liberdade e justiça, aos desafios do novo mundo que vem se impondo ao planeta inteiro. Esse debate geral foi o que França sempre ofereceu de melhor.

Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, faz uma crônica sobre geopolítica às segundas-feiras para a RFI

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