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Mostra em Paris transforma Via Crúcis em transição de gênero

Por Patricia Moribe

Via Crúcis, o caminho de Cristo carregando a cruz, da condenação por Pôncio Pilatos à crucificação até o Monte Calvário, onde foi crucificado, é tema de uma série fotográfica em exposição na Casa do Brasil, da Cité Universitaire, em Paris. No caso, a Via Sacra é uma metáfora para a transição de gênero de um dos autores da instalação.

Os autores são os brasileiros Tarcísio Paniago, de Brasília, e Ariel Nobre, de São Paulo. A sessão de fotos aconteceu durante o feriado de Páscoa, em 2015. “Foi na rua onde eu moro, em Brasília. Foi uma sessão de fotos performática e não pré-determinamos o que queríamos fazer. Só depois, com as fotos prontas, que surgiu a ideia de fazer uma metáfora com a Via Crúcis”, conta Paniago, aluno do curso de Artes Visuais da Universidade de Brasilia.

15ª estação herética

“A mostra tem 15 imagens. As estações da Via Crúcis católica são 14. Mas o então papa João Paulo II sugeriu o acréscimo de uma 15ª estação, a ressurreição, para tirar o foco da morte e direcionar pra vida. O mais importante não é que Jesus foi crucificado, mas que ele ressuscitou. Mas algumas partes mais conservadoras da Igreja Católica consideram isso como uma heresia”, relata Tarcísio Paniago. As imagens remetem ainda à violência contra o LGBT no Brasil.

“Nesse dia em que nos encontramos e fizemos as fotos, foi a última vez que eu o encontrei sem ele ser ainda o Ariel. Na vez seguinte em que nos vimos, e nos debruçamos sobre as fotos é que nos demos conta do paralelo com a Via Sacra”, explica o artista brasiliense.

"XV RESSURRECTIO", a ressurreição. Ariel Nobre e Tarcísio Paniago

“Passagem da morte para a vida”

Ariel Nobre, homem trans, artista, performer e consultor sobre diversidade diz que considera a obra como “passagem da morte para a vida”. Para ele, foi “uma jornada difícil para uma autodescoberta e se tornar quem eu realmente sou”. Ele fala sobre a dificuldade da transição: “A nossa sociedade, quando olhou para mim ao nascer, me viu como mulher. Então, culturalmente, a família, as empresas, a publicidade, me veem como mulher. E eu tive que fazer uma jornada de autoconhecimento para entender os meus desconfortos, entender que na verdade eu não preciso ser o que os outros esperam de mim, que eu posso olhar para dentro e tentar me reconhecer, mesmo sem referências. Ou sem muitas referências”.

Nascida mulher em uma família evangélica de várias gerações, o cristianismo marcou a trajetória de Ariel. “O ápice dessa minha relação com a igreja foi aos 19 anos, quando tentaram me curar em uma clínica da igreja evangélica, aí eu vi que eu não tinha cura. Eu saí da igreja e me tornei lésbica livre. Mas ainda assim esses desconfortos não passavam, até que eu entendi que eu precisava levar a minha masculinidade além”, conta o performer.

Nessa época de questionamentos, Ariel encontrou Tarcísio e a dupla realizou a sessão de fotos em uma noite só. Depois, conta Ariel, veio a necessidade de mudar o nome e pedir que fosse tratado no masculino. E assim Via Crúcis foi se transformando e tomando forma.

“Preciso dizer que te amo”

A transição de Ariel Nobre rendeu também um documentário, depois de uma tentativa de suicídio, resultado de assédio. “O filme foi de três anos atrás, uma época periclitante, tentei me matar. No último momento, me lembrei de registrar minhas últimas palavras, e daí comecei a escrever ‘preciso dizer que te amo’ e não consegui mais parar. Daí entendi que precisava escrever aquilo para viver. Agora eu digo que a minha sentença de vida é escrever até a morte”.

“Preciso dizer que te amo” gerou uma performance, uma série fotográfica e um documentário que foi financiado por um edital municipal com cotas para pessoas trans, uma iniciativa de política pública do então prefeito Fernando Haddad.

O filme recebeu convite para estrear no Festival Internacional de Curtas de São Paulo, passou pelo Festival do Rio e pelo Mix Brasil, e a próxima parada vai ser no Festival de Brasília.

Via Crúcis, de Tarcísio Paniago e Ariel Nobre, com curadoria de Gilberto Lacerda Santos, fica em cartaz na Maison du Brésil, na Cité Universitaire de Paris, até 16 de dezembro.

"IV PRODITIO", a traição. Ariel Nobre e Tarcísio Paniago

 

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