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Opinião: Crise dos coletes amarelos pode paralisar a França por muito tempo

Por Alfredo Valladão

A França e a Europa inteira estão na expectativa. Depois de quase três semanas de silêncio, o presidente Emmanuel Macron vai tomar a palavra para tentar acalmar os ânimos. A equação é simples. Ou bem o discurso de Macron consegue convencer o movimento dos “coletes amarelos” a suspender as manifestações de rua e a começar a dialogar com o governo. Ou então vamos ter mais violências urbanas, assaltos a lojas, incêndios e uma radicalização de massa fora de controle.

Paris não tem mais condições de aguentar, todos os sábados, as cenas de enfrentamentos pesados e quebra quebras sem fim. Neste último fim de semana, todas as forças policiais do país estavam mobilizadas para enfrentar a corja de manifestantes radicalizados, assaltantes comuns e grupos extremistas – de esquerda e de direita – que se misturam aos “coletes amarelos” para atacar e pilhar.

Os efetivos policiais são extremamente eficientes mas estão exaustos. Se as forças que defendem a ordem republicana começarem a falhar, quem vai garantir o governo e as instituições do país? É pouco afirmar que o próximo discurso do presidente vai ser o mais importante do seu mandato. Não só para os franceses mas para toda a Europa.

Quando Macron foi eleito – há 18 meses  – os Europeus deram um suspiro de alívio. Os franceses não haviam caído na armadilha do populismo de extrema-direita.

Os eleitores estavam fartos e com raiva de todos os políticos e partidos tradicionais, mas preferiram votar num homem jovem que prometia modernizar a economia e a política francesas. E que havia feito campanha defendendo a União Europeia com unhas e dentes, rejeitando claramente os inimigos da construção europeia que querem voltar para os Estados nacionais do antigamente, fechados, xenófobos e protecionistas.

Crise pode afetar Alemanha e Europa

Macron foi visto como uma espécie de último cartucho para impedir uma fragmentação catastrófica e perigosa do Velho Continente. Uma Europa forte – econômica e militarmente – com instituições políticas capazes defender os interesses dos seus membros no mundo, só pode existir baixo a liderança da França e da Alemanha.

Se a França afundar numa crise sem saída, quem fica sem alternativas é a União Europeia e a própria Alemanha. Sobretudo porque os movimentos de direita chauvinistas e xenófobos estão de vento em popa em todas as últimas eleições. Basta olhar para a Hungria, a Polônia, a Áustria, a Itália, a Inglaterra do Brexit, os extremistas da AFD na Alemanha e agora o novo partido Vox na Andaluzia.

Os responsáveis europeus olham com angústia para as próximas eleições para o Parlamento Europeu, em maio próximo.

Antes da crise dos “coletes amarelos”, o projeto de Macron era constituir uma grande aliança transnacional dos partidos de centro e dos ecologistas pró-europeus e modernizadores. A ideia era tentar ganhar bastante espaço eleitoral para marginalizar os extremistas antieuropeus, e relançar a União Europeia. Só que agora o presidente francês está ameaçado por uma crise política e social interna que pode paralisar a França por muito tempo.

O pior é que o Velho Continente também está ameaçado por duas potências externas: os Estados Unidos e a Rússia. A administração Trump faz tudo para dividir a União Europeia: é bem mais fácil controlar – econômica e militarmente – pequenas potências desorganizadas.

Quanto a Vladimir Putin, ele não esconde o seu apoio direto aos movimentos e políticos que querem liquidar a construção europeia. Uma Europa fragmentada, sem capacidade de se defender coletivamente, é um prato feito para Moscou que também quer Estados fracos para poder exercer a sua influência.

Claro, a situação parece cada vez mais com a do aprendiz feiticeiro. A História demonstra que uma Europa dividida é sempre uma ameaça de guerra, no Velho Continente e no mundo. Um pequeno fósforo pode provocar uma explosão colossal. Não é por nada que hoje, os Europeus esperam angustiados o discurso de Macron. E a reação dos “coletes amarelos” e da opinião pública francesa.

Alfredo Valladão, professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris, faz uma crônica de Política Internacional às segundas-feiras para a RFI Brasil

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