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Cineasta Marcelo Novais lança em Paris um “diário íntimo de uma geração”

Por Maria Paula Carvalho

Mineiro de Manhuaçu, Marcelo Novais Teles vive na França desde os anos 1980. Ator e diretor de cinema, ele conversou com a RFI sobre o seu filme mais recente, “L’Exilé” (em português, “O Exilado”), que estreia essa semana em Paris.

Assista ao vídeo da entrevista na íntegra abaixo

O longa-metragem conta a história de um jovem brasileiro que se instala na capital francesa para seguir carreira de ator. Envolvido numa trama intensa, tanto amorosa quanto profissional, ele decide filmar e arquivar essas experiências. À medida que o tempo avança, nasce um registro de uma época, uma espécie de autorretrato ou espelho de uma geração.

“Desde o começo, a proposta era de fazer um diário, algo que eu comecei a filmar nos anos 80, quando havia um movimento cinematográfico com nomes como Alain Cavalier, Nanni Moretti e Robert Kramer que começavam a fazer esse tipo de filme”, explica. “Mas eu não queria fazer um diário só meu, então eu pensei em fazer ao longo do tempo. Eu ia escrevendo as cenas e filmando, mas para fazer o filme durante dez anos”, completa.  

Nesse percurso, Marcelo Novais cruza com rostos então desconhecidos, mas que se tornariam famosos posteriormente. “Todos são amigos íntimos até hoje. Eu sou padrinho do filho mais velho do Mathieu Amalric, um dos atores franceses mais interessantes da nossa geração”, conta. “Então, alguns são profissionais, que fazem sucesso, enquanto outros são simplesmente amigos que eu fui filmando, mas de uma maneira bem metódica. Eu escrevia a situação, eles vinham nos lugares e eu filmava com uma câmera amadora para guardar esse aspecto caseiro”.    

Jantares, festas, ensaios, encontros com a turma ​​e a família, conversas, viagens pela Europa, mudanças de endereço, etc. Tudo isso virou matéria-prima para o filme. “O Exilado” faz uma montagem de todas essas passagens, uma espécie de crônica da juventude.

“É um retrato de um grupo de amigos daquela época, anos 80 e 90 em Paris, e um retrato da própria cidade, pois eu tenho algumas cenas em super 8 que eu mesmo filmei. Eu filmo também no Brasil, na Inglaterra e na Irlanda, sempre com o mesmo equipamento para guardar essa característica íntima.”  

A trilha sonora é assinada por Zeca Baleiro. “Esse é um grande presente que o Zeca Baleiro me fez. Eu tinha feito uma primeira edição do filme, apresentamos para o Zeca, ele gostou muito e compôs toda a trilha sonora que é realmente muito bonita,” diz.

Sonho realizado

O filme já foi exibido no Festival de documentários de Marselha, no sul da França, onde foi bem recebido, antes de passar por Nova York, Teerã, Cuba e Brasil. A partir do dia 12 até 24 de dezembro, fica em cartaz na mostra Les Decouvertes do cinema Saint-André des Arts, em Paris.

 “É uma sala do Quartier Latin, que é muito importante, quase um templo do cinema, e eu que morei aqui cinco anos como clandestino e passava o dia inteiro nessas salas de cinema, quando estudante, hoje mostrar um filme no Saint-André des Arts é uma coisa absolutamente genial,” diz o diretor.

Quando perguntado sobre a decisão de se estabelecer definitivamente na França, Marcelo cita a vida cultural parisiense.

“O que eu mais gosto da França é o acesso à cultura. Eu sempre fui muito curioso intelectualmente e artisticamente. Eu sempre quis aprender. Eu fazia teatro de rua no Brasil sob a ditadura militar, era difícil, não tinha meios, tinha que fugir da polícia, e quando eu cheguei na França eu vi que aqui o acesso à cultura era gratuito e quase obrigatório. Aí fui ficando, criei uma companhia de teatro, trabalhei na televisão e já faz 37 anos que vivo aqui,” diz.

Marcelo conta que o próximo projeto será um filme sobre a Coreia do Norte.

“Eu estou voltando da Coreia do Norte, pois um filme que eu fiz no Brasil chamado “O Túmulo da Velha” foi selecionado para um festival lá e foi uma experiência de sociedade bem forte, bem diferente. Eu escrevi um livro sobre isso e agora desse livro eu estou escrevendo um roteiro”, revela.

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