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Diante de inércia dos governos, cresce mobilização cidadã contra mudanças climáticas

Por Marcos Lúcio Fernandes

2018 não foi um ano de muitos avanços para o meio ambiente, com várias catástrofes naturais, altas temperaturas pelo mundo e pouco desenvolvimento em termos de ações para conter as mudanças climáticas. No meio da inércia das autoridades, surgem iniciativas individuais de cidadãos que podem ser a solução para os próximos anos.

Nos Estados Unidos, na cidade de São Francisco, a francesa Stéphanie Regni criou o site fillgood.co, onde propõe materiais de limpeza sustentáveis. “A ideia é mostrar às pessoas todas as soluções que elas podem aplicar no dia-a-dia. O objetivo é apresentar produtos de limpeza e gestos a serem ser adotados no cotidiano, com uma particularidade, que é o sistema de substituição e reciclagem. Como fazíamos com o leite nos EUA há muitos anos, deixamos na porta das pessoas materiais como detergente, num pote de vidro, e, quando eles acabam, são deixados na porta. Na próxima passagem do vendedor, recuperamos o pote, lavamos e o utilizamos novamente”, explica.

“Os clientes fazem o pedido online e temos um dia de entrega por semana em três áreas da cidade”, ressalta. “A compostagem e a reciclagem são boas iniciativas, mas é preciso que as pessoas entendam que a melhor solução é a redução de resíduos.”

Já na França, Eliott Lepers fundou os sites “Estamos prontos” e “Ainda há tempo”, onde educa a população quanto à questão ambiental, além de ter se juntado a diversos youtubers para chamar atenção para a causa.

“Temos hoje vários títulos honorários ligados ao meio ambiente, mas nenhuma ação. Foi isso o que provocou a saída do ministro francês da Transição Ecológica, Nicolas Hulot, que deixou um apelo dizendo que ‘estava sozinho na sociedade’. Essa afirmação foi desmentida pelo cidadão Maxime Lelon, que criou um evento no Facebook, reunindo milhares de pessoas”, disse.

“Há também dezenas de coletivos na França, que organizaram outra manifestação um mês depois”, afirma Eliott Lepers. “E ainda vários youtubers que se mobilizam para sensibilizar ao máximo a opinião pública e atrair mais pessoas. Há diversas outras iniciativas que surgem em todas as cidades francesas, elas estão pipocando. Com o site ‘Ainda é tempo’, reunimos e listamos essas ações para mostrar como cada um pode agir localmente contra as mudanças climáticas.”

Movimento cidadão

Jonathan Guyot faz parte do Grupo Energias Renováveis, Meio Ambiente e Solidariedade. Ele afirma que é preciso deixar de lado uma visão pessimista em que cidadãos permanecem inertes diante dos governantes e partir para a ação.

“O que dizemos é: podemos agir cada um no nosso nível, não importa onde for. Somos capazes de fazer nossa parte pelo clima, não interessa se somos um cidadão, uma empresa ou um coletivo. E sobretudo não devemos esquecer de apoiar as populações mais vulneráveis. Fixamos um objetivo ambicioso até 2020: mostrar que somos capazes de mobilizar 1 milhão de ações pelo clima”, diz.

Guyot explica que o princípio de sua iniciativa é ir contra a tendência da maioria dos cidadãos, de não assumir a responsabilidade diante do poder público ou das empresas, e começar a se mobilizar. “Tomar responsabilidade é ter consciência, na escala individual, que podemos agir coletivamente e ter impacto na questão das mudanças climáticas e nos modos de consumo, mudando, por exemplo, o uso do dinheiro e de energias. Um cidadão é um colaborador, um habitante e um eleitor, e pode fazer pressão nas organizações”, destaca.

A ação parte de mim

“Consegui, com um trabalho e um salário normais, dividir por 5 minha emissão de carbono. Um francês emite em média 10 toneladas de CO2 e eu, hoje, emito apenas duas. Segundo o Relatório do Planeta, precisaríamos de quase três planetas se o mundo todo fosse francês. Se todos seguissem um modo de vida mais sustentável, precisaríamos de menos do que um planeta inteiro”, declara Julien Vidal, autor do livro “Ça commence par moi” (“A ação parte de mim”, em português). Ele afirma que conseguiu mudar completamente seu modo de vida para reduzir a emissão de carbono.

“Em 2017, fiz essa descoberta incrível: temos todas as soluções para conseguir acabar com esse problema, que é urgente. Me dei conta de que isso criava um ótimo processo, pois me possibilitava a otimização de meu tempo e uma melhor alimentação, com produtos de mais qualidade. A melhor coisa foi descobrir que eu não era mais espectador, mas ator de um mundo melhor. E mesmo que eu seja apenas um no meio de 7 bilhões de humanos, eu posso decidir viver de uma maneira que me agrada”, revela o escritor.

2018 deixou muitos desafios para 2019 em termos de desenvolvimento sustentável e preservação do meio ambiente. Mas os projetos de Stéphanie, Jonathan ou Julien mostram que, às vezes, é preciso parar de esperar que o poder público ou as empresas tomem uma atitude e partir para a ação. Fica o exemplo para o ano que começa.

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