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Um pulo em Paris
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Humoristas francesas de stand up dão novo fôlego às causas feministas

Por Adriana Moysés

A visibilidade das mulheres tem aumentado em várias frentes na França: na política, na mídia e no mundo empresarial. Na área da cultura, as mulheres sempre estiveram presentes. Porém, de alguns anos para cá, uma geração de atrizes e comediantes engajadas abraçou questões como o sexismo, o assédio moral e sexual, a violência doméstica, a discriminação profissional e a opressão religiosa para colocá-las no centro de suas peças de teatro e espetáculos de stand up. Elas têm de 30 a 50 anos e forte personalidade.

Uma das humoristas mais populares da França, Florence Foresti, é uma feminista ferrenha. Em suas apresentações, sempre de casa cheia, ela combate o sexismo, que "induz à violência sexual, moral e física". Foresti empresta sua imagem à ONG women-safe.org. Além disso, ela frequenta sessões de acompanhamento de mulheres que conseguiram fugir de seus algozes e procurar ajuda. Dessas "heroínas", costuma dizer: "São as pessoas mais corajosas que conheço no mundo, porque superaram o medo de morrer para romper esse ciclo infernal de violência doméstica ou sexual".

Anne Roumanoff, outra humorista que faz espetáculos para milhares de espectadores, de ambos os gêneros, acredita que o feminismo passou a ser indissociável da arte. "Quando somos mulheres, somos atacadas o tempo todo. É preciso ter uma personalidade forte e saber resistir às críticas para sobreviver nesse meio". E na vida.

Num estilo ácido e eloquente, Sophia Aram, atriz e humorista, está atualmente em cartaz em Paris com o espetáculo "Para nossos amores". No palco, ela denuncia o cinismo da sociedade diante de situações intoleráveis. "A cada 7 minutos, uma mulher é estuprada na França e isto virou banal, ninguém faz nada", condena. Aram também se apresenta como uma feminista "convicta, ateia e de esquerda".

Cartaz do espetáculo de Sophia Aram (foto), atualmente em cartaz, "Para nossos amores". Crédits: DR

A lista de artistas francesas que lutam contra estereótipos opressores criados pela sociedade patriarcal é longa: Camille Cottin, Camille Chamoux, Julie Ferrier, Blanche Gardin, Claudia Tagbo, sem falar nas dezenas de blogueiras e "youtubeuses" que falam sobre as causas feministas para a geração "Y".

Assédio no meio jornalístico

Uma pesquisa recente mostrou que a presença das mulheres no rádio e na TV cresce, mas o tempo de fala delas ainda é duas vezes menor do que o dos homens: eles ocupam 68% do tempo, contra 32% para as mulheres. O levantamento foi feito pelo Instituto Nacional do Audiovisual (INA).

Atualmente, a imprensa francesa atravessa uma crise sem precedentes, desde a descoberta, em fevereiro, que jornalistas de renome e profissionais da comunicação criaram um grupo no ano 2000 para assediar colegas mulheres nas redes sociais. A "gangue" virtual chamada “Liga do LOL” - LOL, em inglês, quer dizer “Laughing Out Loud”, algo como “Rindo alto”, em português -, atuou durante dez anos.

Tudo começou com um grupo Facebook, criado pelo jornalista Vincent Glad, depois demitido do jornal Libération. Ele e 30 comparsas, em sua maioria homens brancos, faziam piadas sobre mulheres feministas ou militantes antirracistas influentes na internet. Por meio de perfis falsos, eles enviavam às "colegas" de profissão frases do tipo: "Eu vou escutar seu programa [de rádio] amanhã às 7h, então vou poder me tocar na minha cama, ouvindo você" ou “Sua bunda fica linda nessa saia”.

De acordo com o podcaster Henry Michel, a “Liga do LOL” tinha a intenção de produzir “piadas que não podiam ser feitas em público”. “Era divertido, besta, tinha esse lado de um observatório dos personagens do Twitter. Compartilhávamos links, fotos, fazíamos piada das pessoas”, contou.

Depois da revelação desse escândalo, uma pesquisa mostrou, para surpresa dos franceses, a amplitude do sexismo entre os jornalistas. Ao menos 270 redações estão envolvidas em casos de assédio na França. Entre elas, 208 são citadas por agressão sexual.

Luta pela igualdade será longa

Neste Dia Internacional dos Direitos das Mulheres, outros fatos mostram que a luta pela igualdade ainda vai exigir muito esforço das francesas.

O feminicídio bateu um novo recorde nesse início de ano: 30 mulheres foram assassinadas por seus maridos ou companheiros, contra 18 casos no mesmo período no ano passado.

O número de mães chefes de família e que educam os filhos em situação de precariedade não para de crescer; 40% das pensões alimentícias não são pagas no país.

A diferença de remuneração entre homens e mulheres ocupando a mesma função continua profundamente injusta: eles recebem salários 26% superiores aos das mulheres, no mesmo cargo.

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